Na última década, muitos estudos têm se dedicado a tentar compreender o impacto da gratidão na felicidade. Cada vez mais, os resultados obtidos nesses estudos indicam que as pessoas que têm o hábito de reconhecer o que há de bom em suas vidas tendem a ser mais felizes e menos deprimidas. De fato, há fortes evidências de que a gratidão, quando praticada diariamente, pode não só contribuir para a felicidade, mas também para uma vida mais saudável.

Gratidão comprovada cientificamente

Um estudo de 2003, conduzido por dois pesquisadores norte-americanos, Robert Emmons da Universidade da Califórnia e Michael McCullough da Universidade de Miami, comparou vários grupos de pessoas: um grupo no qual as pessoas registravam diariamente as coisas pelas quais eram gratas, e outros dois grupos nos quais as pessoas registravam as coisas que os incomodavam ou razões pelas quais se sentiam melhores do que os outros. As pessoas que mantiveram os diários de gratidão mostraram aumento nos níveis de determinação, atenção, entusiasmo e energia em comparação com os outros grupos. Após 10 dez semanas de prática, os participantes do grupo de gratidão se sentiram 25% melhores que os dos outros grupos. Além de favorecer pensamentos otimistas e o bem-estar global, o diário da gratidão também motivou as pessoas para um maior engajamento com as atividades físicas, levando-as a se exercitaram em média 1,5 horas a mais do que aqueles que não praticaram a gratidão. Dessa forma, há fortes evidências de que a gratidão contribui igualmente para a saúde física e a mental.

Gratidão contra a depressão

Os efeitos da gratidão sobre a saúde física e mental parecem exercer considerável impacto sobre a qualidade do sono, a ansiedade e a depressão. Isso foi demonstrado por um estudo de 2012 realizado na Universidade de Hong Kong, na China. Os pesquisadores Ming Yen Ng e Wing Sze Wong analisaram os efeitos combinados da gratidão e da qualidade do sono nos sintomas de ansiedade e depressão. Eles descobriram que as pessoas que demonstravam mais gratidão no dia a dia também apresentavam uma melhor qualidade de sono, assim como menores níveis de ansiedade e de depressão. Essa descoberta suscitou um questionamento por parte dos pesquisadores: a qualidade do sono estaria contribuindo para a atitude de maior gratidão das pessoas ou o fato de serem gratas melhorava o sono delas? 

Pessoas gratas dormem melhor

Para tentar responder a essa pergunta, os pesquisadores fizeram um experimento no qual controlaram a quantidade de sono das pessoas envolvidas no estudo. Com isso, eles constataram que, ao controlar a quantidade de sono que as pessoas recebiam, a gratidão ainda produzia uma diminuição dos sintomas depressivos. Ou seja, independentemente dos níveis de insônia, as pessoas que demonstraram mais gratidão ficaram menos deprimidas. Com a ansiedade, contudo, os resultados foram diferentes. Uma vez que a quantidade de sono foi regulada, a gratidão não mostrou qualquer efeito sobre a ansiedade. O que ficou claro para os pesquisadores é que o efeito da gratidão sobre a ansiedade é indireto, ao passo que sobre a depressão é direto. Dito de outra forma, mais gratidão no dia a dia ajuda as pessoas a dormirem melhor, melhor qualidade do sono contribui para a diminuição da ansiedade. No caso da depressão, porém, quanto mais gratidão, menos depressão, independentemente da qualidade do sono. 

Os efeitos da gratidão no cérebro

Não sem razão, por conta da variedade de efeitos que a gratidão pode ter sobre a saúde física e mental, ela tem despertado amplo interesse da comunidade científica. Especialmente, busca-se compreender a gratidão ao nível das funções cerebrais. Um dos estudos pioneiros nesse sentido foi o conduzido por Roland Zahn no National Institute of Health, nos Estados Unidos. Em 2008, Zahn e colaboradores examinaram o fluxo sangüíneo em várias regiões do cérebro, enquanto os sujeitos invocavam sentimentos de gratidão. Eles descobriram que, em geral, os indivíduos que demonstravam mais gratidão tinham níveis mais altos de atividade no hipotálamo. O hipotálamo é uma região do cérebro associada ao controle de uma ampla gama de funções corporais essenciais, tais como comer, beber e dormir, influenciando o metabolismo e os níveis de estresse. Com o estudo sobre a atividade cerebral ocorre um avanço no entendimento de como a gratidão pode contribuir para aspectos tão diversos quanto o aumento da disposição para a atividade física até a melhora do sono e a diminuição da depressão e de dores.

A gratidão e os hormônios da felicidade

Uma descoberta muito importante das investigações conduzidas por Roland Zahn foi a de que os sentimentos de gratidão ativaram diretamente as regiões cerebrais associadas ao neurotransmissor dopamina. A dopamina é conhecida como o neurotransmissor da “recompensa”, ou seja, é o hormônio associada à sensação de prazer que obtemos ao experienciar algo agradável e/ou satisfatório para o nosso corpo ou mente. A importância da dopamina, contudo, se dá também por seu papel no processo de se iniciar uma ação qualquer.  O aumento de dopamina potencializa a probabilidade de uma pessoa fazer alguma coisa. Nesse sentido, entende-se que a gratidão pode ter um impacto tão poderoso no estado mental e no comportamento das pessoas por que ela envolve o cérebro em um círculo virtuoso. Uma vez que o cérebro tende a focar em um tipo de estímulo por vez (positivos ou negativos), e a se guiar pelo viés de confirmação, procurando coisas que provem o que ele já acredita ser verdade, a dopamina reforça isso. Assim, quando começamos a focar nas coisas pelas quais somos gratos – por mais simples e corriqueiras que sejam – nosso cérebro começa a procurar por mais coisas que nutram o sentimento de gratidão. É assim que o círculo virtuoso é criado.

Em resumo, praticar a gratidão parece dar início a um ciclo saudável e autoperpetuado em nosso cérebro.  Assim, quanto mais bem vemos em nossas vidas, mais felizes e bem-sucedidos temos chances de ser.

Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.