Ed Diener e Martin Seligman são dois dos pioneiros nos estudos sobre a Psicologia da Felicidade, que veio a constituir o movimento da Psicologia Positiva lançado no final da década de 1990. Em 2002, eles conduziram um estudo na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, que visou investigar o que caracterizava os alunos com as pontuações mais altas registradas em uma pesquisa sobre felicidade pessoal. O que eles descobriram, ao comparar os 10% mais felizes com os menos felizes foi: as pessoas muito felizes tinham relações sociais e românticas mais fortes do que as que pontuaram baixo ou médio em felicidade. Em comparação com os grupos menos felizes, o grupo dos mais felizes não se exercitou significativamente mais e não teve uma prática religiosa consideravelmente mais ativa. Da mesma forma, as pessoas mais felizes não experimentaram eventos que tendemos considerar essenciais para a felicidade, do tipo obter uma promoção, comprar um carro novo ou fazer uma viagem incrível. Ou seja, nenhuma variável pareceu exercer maior impacto sobre a felicidade do que o cultivo de boas relações com amigos, parceiros românticos e familiares.

 

A felicidade pede conexão

Em 1986, quase duas décadas antes do estudo conduzido por Diener e Seligman, outro estudo foi realizado na mesma Universidade de Illinois. Na época, o psicólogo Reed Larson liderou uma pesquisa na qual as pessoas reportavam seus estados de humor em momentos aleatórios do dia. Os resultados apurados pelos pesquisadores mostraram que as pessoas se declaravam mais felizes quando estavam com seus amigos e familiares. Outro estudo, este de 1991, feito na Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, e liderado por Luo Lu e Michael Argyle, procurou compreender melhor a importância das habilidades sociais para a felicidade. Para tanto, os psicólogos investigaram a influência da cooperatividade nos níveis de felicidade das pessoas. Os pesquisadores descobriram que as pessoas que se mostravam mais dispostas a se engajar construtivamente em atividades com os outros eram mais felizes. Os resultados desse estudo apontam para o fato de que a qualidade das relações é a chave para a felicidade. O engajamento positivo, a disposição para cooperar e o grau de proximidade existente nas relações são fatores fundamentais para a felicidade. Isso foi comprovado por dois estudos, um do ano de 2000 e outro de 2006. O primeiro foi liderado por Todd Jackson, da Universidade de Wisconsin, nos EUA, e o segundo conduzido pelo Psicólogo israelense Netta Horesh. Esses estudos revelaram que o sentimento de solidão pode ser evitado com apenas um relacionamento próximo, juntamente com uma rede de outros relacionamentos não tão íntimos. O que se concluiu é que construir uma relação próxima com alguém requer a disposição para revelar questões e sentimentos pessoais. E é essa intimidade que pode nos proteger da solidão. 

Relacionamentos positivos contribuem enormemente para a felicidade, além de influenciarem a saúde no longo prazo tanto quanto hábitos saudáveis como não fumar e alimentar-se de forma equilibrada. Inúmeros estudos têm demonstrado que relacionamentos satisfatórios estão associados a maior longevidade e, especialmente, a uma vida mais feliz. 

A felicidade é par

O psicólogo Theodore Robles, da Universidade da Califórnia, é um estudioso dos efeitos do estresse e das relações sociais sobre a saúde. Em 2014, ele publicou um amplo estudo de revisão de pesquisas feitas nos últimos cinquenta anos sobre a associação entre qualidade do casamento e saúde física em mais de 72 mil pessoas. Os resultados da análise mostraram que os casamentos mais felizes estavam relacionados a melhores resultados de saúde, incluindo menos hospitalizações, menos doenças graves e menos dor física. Assim como relações positivas podem contribuir para a saúde e a felicidade das pessoas, os relacionamentos tóxicos podem criar condições para o desenvolvimento de estados depressivos. Um estudo da Organização Mundial de Saúde de 2010, com 35 mil pessoas em quinze países, revelou que as pessoas em relações estáveis tinham menor probabilidade de desenvolver ansiedade e outros transtornos mentais. É válido ressaltar que os benefícios das relações positivas não se limitam aos relacionamentos românticos. O cientista social Robert Putnam desenvolveu vários trabalhos nos quais ele demonstra que amizades íntimas e conexões sociais com a família e membros da comunidade na qual vivemos também podem nos ajudar a ser mais saudável e feliz.

 

Boas relações é sinal de bem-estar

 

O apoio social também é importante na redução da resposta ao estresse. É o que mostra um estudo publicado em 2002, conduzido por Clayton Hilmert, da Universidade de San Diego, na Califórnia. Esse estudo investigou a relevância do suporte social para pessoas submetidas ao estresse gerado por situações de avaliação, como falar em público, por exemplo. As pessoas que tiveram um amigo próximo ou membro da família presente na plateia apresentaram menos excitação cardiovascular e/ou recuperação cardíaca mais rápida do estresse. Resultados como esse indicam que o apoio social decorrente da manutenção de relações positivas afeta positivamente a saúde física e mental, aumentando o bem-estar das pessoas. Mais do que isso, esses resultados apontam para o fato de que uma vida mais saudável e feliz está diretamente associada à nossa capacidade de construir e de manter relações de qualidade com as pessoas que nos cercam, seja no âmbito da vida íntima ou social. A maneira como conduzimos os nossos relacionamentos tem um impacto significativo em nossa felicidade, bem como em nossa saúde. Em 2010, no Canadá, os pesquisadores da Universidade Carleton, Deanna Whelan e John Zelenski conduziram experimentos que demonstraram que estados positivos de humor tornam as pessoas mais predispostas ao contato social. Os resultados obtidos pelos pesquisadores canadenses indicam que as pessoas felizes tendem a se engajar na construção de relacionamentos positivos. Faz-se, assim, um círculo virtuoso, uma vez que os relacionamentos positivos ajudam as pessoas a se tornarem mais felizes.

 

Como construir relações positivas

 

A construção de relações positivas demanda pouca coisa: carinho e atenção. As pesquisadoras Naomi Gerstel, da Universidade de Massachusetts, e Harriet Gross, da Universidade de Lincoln, realizaram um amplo estudo sobre a qualidade dos vínculos entre casais. O que elas descobriram é que interações corriqueiras como conversa fiada, ou apenas curtir a companhia um do outro, eram importantes para um relacionamento. Elas constataram que apenas falar sobre coisas triviais ajuda as pessoas a se sentirem mais felizes e saudáveis, sendo que a conversa face a face é mais eficaz do que falar ao telefone, por exemplo. Contatos virtuais tendem a ser melhores do que nenhum contato, mas não parecem capazes de substituir os efeitos da proximidade física para a manutenção de relações positivas. 

 

Base sólida para a felicidade

 

Relacionamentos próximos com nossos amigos e familiares nos ajudam a construir nosso autovalor e autoimagem. Com eles podemos obter apoio para os momentos em que precisamos enfrentar desafios, costumamos receber amor e compreensão na mesma proporção em que somos convocados a refletir sobre os erros que cometemos. Os vínculos que construímos nos dão uma razão para fazer muitas das coisas que fazemos, e isso ajuda a dar significado às nossas vidas. As pessoas com as quais nos relacionamos também nos fornecem um senso de identidade e de pertencimento, que nos conecta ao sentimento de que fazemos parte de algo maior na vida. E é isso que nos ajuda a ser mais felizes. Basta lembrar das vezes em que rimos animadamente ou sentimos que tudo estava certo com o mundo. Muito provavelmente, essas lembranças envolvem outras pessoas, com as quais construímos relações positivas. 

Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.