No senso comum sabe-se que a prática de atividade física ajuda a descarregar a tensão, nos deixando mais relaxados e menos irritados. Em respaldo, a ciência tem sistematicamente comprovado os benefícios do exercício para a saúde física e mental, e seu impacto positivo na qualidade de vida. Estudos amplamente divulgados na grande mídia atestam que as pessoas fisicamente ativas têm riscos muito menores de desenvolver doenças cardiovasculares ou depressão e ansiedade do que as pessoas que raramente se movimentam. A novidade, porém, é que em pesquisas recentes, focadas na investigação da relação entre atividade física e estados emocionais, tem-se constatado que mesmo pequenas quantidades de exercício podem ter um efeito positivo na felicidade das pessoas. 

É o que demonstra, por exemplo, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, no qual eles analisaram vários estudos anteriores sobre atividade física e felicidade. O estudo de Michigan, conduzido pelo Dr. Weiyun Chen, apresenta uma diferença significativa quando comparado a outros estudos sobre o impacto da atividade física no estado emocional. Em pesquisas anteriores o foco de atenção era nas relações entre exercício e problemas psicológicos como depressão e ansiedade. O estudo da equipe do Dr. Chen, contudo, explorou a ligação entre a atividade física e as emoções otimistas, especialmente em pessoas psicologicamente saudáveis. 

 

A ciência confirma

Os dados analisados envolveram mais de quinhentas mil pessoas em diferentes faixas etárias e níveis socioeconômicos, e para a maioria delas o exercício estava fortemente ligado à felicidade. Os resultados do estudo, publicados em abril de 2018, revelam que pessoas que se exercitam uma vez por semana ou por apenas dez minutos por dia tendem a ser mais alegres do que aquelas que nunca se exercitam. Nesse sentido, constatou-se que a quantidade de exercício necessária para influenciar a felicidade foi pequena, mas mais movimento geralmente contribuiu para uma maior felicidade. Pessoas que praticam trinta minutos de atividade física por dia têm 30% mais chances de se considerarem felizes do que as que se exercitam menos ou são sedentárias. Os resultados também apontaram para o fato de que, apesar de a frequência e o nível de atividade física afetarem diretamente a felicidade, o tipo de exercício praticado parece não fazer diferença. As diferentes modalidades de atividade física como caminhada, corrida, alongamento, yoga, natação, dança, luta e outras parecem ser igualmente eficazes na promoção de felicidade. 

 

Atividade diária promove bem-estar

Outro estudo que atesta a importância da atividade física para a felicidade foi publicado em 2017 por pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Universidade de Essex, ambas no Reino Unido. Nesse estudo, os pesquisadores descobriram que a atividade física, independentemente de ser ou não classificada como exercício, pode ter um efeito positivo no bem-estar emocional. Assim, de acordo com Jason Rentfrow, um dos líderes da pesquisa, o simples fato de estar fisicamente ativo contribui para que as pessoas se sintam mais felizes, mesmo em atividades corriqueiras do dia a dia. Segundo o pesquisador, os dados coletados mostram que as pessoas felizes são mais ativas em geral, mas as análises também indicaram que os períodos de atividade física levaram ao aumento do humor positivo, independentemente da felicidade inicial dos indivíduos. Esses resultados demonstram que para ser mais feliz ninguém precisa correr uma maratona ou se exercitar arduamente. O importante para a promoção de estados de humor mais positivos é que a pessoa se mantenha ativa ao longo do dia, que se envolva periodicamente com atividade física. Nesse sentido, trocar o elevador pela escada ou caminhar até a padaria regularmente já pode ser o começo de uma rotina mais saudável e feliz.

 

Exercícios e seus benefícios

De fato, estudos têm indicado que hábitos de vida passivos e sedentários como passar horas do dia assistindo televisão, por exemplo, estão associados a estados depressivos. Além do aumento de energia, a atividade física contribui para a autoestima das pessoas. Pessoas ativas fisicamente tendem a se sentirem realizadas com o fato de conseguirem superar a acomodação e atingirem objetivos pessoais relativos à melhora da saúde e/ou à satisfação estética em relação ao corpo. Em adição, o exercício tem um efeito sobre os sintomas depressivos que é similar ao dos medicamentos antidepressivos. Isso foi demonstrado em um estudo sueco de 2007, liderado por Astrid Bjørnebekk, do Karolinska Institutet. Os resultados desse estudo mostraram, pela primeira vez, que a atividade física estimula a produção de novas células cerebrais. Em 2014, um novo estudo não apenas confirmou os resultados obtidos anteriormente pelos suecos como avançou no entendimento dos benefícios do exercício para a saúde mental. 

 

Os efeitos positivos para a memória

Liderado por uma equipe de neurocientistas da Universidade de Magdeburg, na Alemanha, o estudo mostra que a atividade física pode melhorar o desempenho da memória em pessoas mais velhas através do aumento do volume e do fluxo sanguíneo em uma área do cérebro chamada hipocampo. O hipocampo é uma estrutura cerebral importante para a memória e a aprendizagem, e pesquisas anteriores já haviam indicado que o exercício aeróbico pode aumentar o fluxo sanguíneo no hipocampo entre pessoas mais jovens. 

Favorecimento da memória e da aprendizagem, melhora da qualidade de sono, diminuição de sintomas depressivos e da ansiedade, aumento da autoestima e da sensação de realização são alguns dos benefícios da atividade física que contribuem para a promoção de felicidade. Curiosamente, a felicidade e o exercício estão independentemente associados ao fortalecimento do sistema imunológico e à liberação de endorfinas. Tanto o exercício quanto a felicidade levam ao aumento da produção de anticorpos, que são um tipo especial de proteína produzida pelo sistema imunológico, e que também ajudam a produzir outras células que auxiliam no sistema imunológico, responsável pela capacidade do corpo reagir aos processos de adoecimento. 

 

Anticorpos a mais para quem se exercita

O Psicólogo Sheldon Cohen, da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, tem estudado a relação entre felicidade e adoecimento há mais de uma década. Os resultados obtidos por Cohen mostram que as pessoas felizes são mais resistentes a doenças que variam do resfriado comum a doenças cardíacas, enquanto o estresse e a ansiedade tendem a tornar as pessoas mais suscetíveis a doenças, incluindo diabetes e derrame. Ainda em 1991, o pesquisador norte-americano David Nieman iniciou uma série de estudos que investigaram o impacto do exercício na produção de anticorpos. Nieman descobriu que o exercício aumenta a produção de anticorpos em até 300%.

 

Endorfina é produzida com exercício 

Assim como a produção de anticorpos está conectada tanto ao exercício quanto à felicidade, a produção de endorfinas também está ligada. As endorfinas são neurotransmissores, substâncias químicas que transmitem sinais de um neurônio para o outro. Quando o corpo fica sob estresse ou experimenta dor, endorfinas são produzidas no hipotálamo e na glândula pituitária do cérebro. Em função disso, as endorfinas são consideradas analgésicos naturais porque ativam receptores opioides no cérebro que ajudam a minimizar o desconforto. Elas também podem ajudar a provocar sentimentos de euforia e bem-estar geral, sendo também responsáveis pela sensação de prazer. Assim, quando o corpo é submetido a estímulos como sexo, comida ou dor, o hipotálamo exige endorfinas, e as células por todo o corpo que as contém atendem ao chamado. Dessa forma, as endorfinas agem tanto como um analgésico quanto como uma recompensa. O exercício também estimula a produção de endorfina, mas pesquisadores descobriram que atividade física de leve a moderada não produz endorfinas. 

Segundo o Psicólogo do Esporte e estudioso do tema J. Kip Matthews: quando nos exercitamos, o cérebro aumenta a produção dos neurotransmissores serotonina e norepinefrina. Esse dado, mais do que a produção de endorfinas, ajuda a explicar o papel da atividade física, de qualquer intensidade, no aumento da felicidade, uma vez que estudos têm ligado baixos níveis de serotonina e norepinefrina à depressão. O que todos esses estudos têm apontado é que: o exercício pode realmente ajudar a afastar a depressão e a ansiedade, favorecendo a felicidade na medida em que proporciona ao corpo uma oportunidade de praticar uma resposta adequada ao estresse, e agilizando a comunicação entre os sistemas neurais envolvidos com emoções e sensações positivas. 

Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.