Um dos precursores do movimento da Psicologia Positiva – “a Ciência da Felicidade” – o norte-americano Martin Seligman é categórico ao afirmar que a gentileza é um dos principais fatores que contribuem para uma vida feliz. Seligman descreve a prática da gentileza e da bondade como uma forma de gratificação psicológica associada ao uso das forças de caráter. O amor altruísta é uma das 24 forças de caráter associadas às seis principais virtudes humanas. As forças e as virtudes identificadas pelos estudiosos da felicidade são o resultado de uma ampla investigação que durou três anos e envolveu vários pesquisadores. Analisando religiões, filosofias e conceitos éticos e morais de inúmeras culturas e épocas, os pesquisadores chegaram a conclusão de que alguns comportamentos, práticas, sentimentos e atitudes são considerados universalmente bons e adequados para a promoção do que há de melhor no ser humano. As virtudes e as forças de caráter, portanto, são parte considerável daquilo que os seres humanos entendem que pode nos ajudar a sermos melhores e mais felizes. 

Praticar o bem é fortalecer a felicidade

Tornar-se melhor e ser mais feliz tem muito mais a ver com a diferença que se pode fazer na vida dos outros do que com investir toda energia em “melhorar” de vida. Tanto Martin Seligman quanto o Psicólogo Social Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia, realizaram experimentos que mostram diferenças mensuráveis no nível e na qualidade da felicidade obtidos de ações filantrópicas versus atividades que eram consideradas “divertidas”. Para muitas pessoas isso pode parecer contra intuitivo, afinal vivemos em uma cultura e época nas quais se valoriza a busca do prazer e da satisfação individual. Mas, ao contrário do que se apregoa, a gentileza e o altruísmo são elementos chave para a felicidade. Basicamente, a gentileza e o altruísmo possuem forte conexão com os níveis de autoestima de uma pessoa e com sua capacidade de construir vínculos íntimos com outras. O psicólogo Dan Gilbert, Professor da Universidade de Harvard e autor do livro “Tropeçando na Felicidade”, explica que: quando as pessoas se dedicam aos outros, e são reconhecidas por isso, há um sentimento de intensa satisfação com o próprio comportamento e com elas mesmas.

 

Pequenos gestos, grandes resultados

Dessa forma, a prática do altruísmo tende a expandir nossa capacidade individual de se importar com outro. Em 2004, Sonja Lyubomirsky, professora da Universidade de Stanford e um dos principais nomes da Psicologia Positiva, publicou os resultados de um estudo que demonstra o impacto positivo da prática de gentileza na felicidade. Os resultados obtidos mostram que se uma pessoa se envolve em cinco atos aleatórios de gentileza ela tem seus níveis de emoção positiva aumentados. Se todos os cinco atos forem realizados no mesmo dia, então, o aumento das emoções positivas é ainda maior. Lyubomirsky defende a ideia de que todos nós realizamos atos de gentileza para os outros. Esses atos podem ser grandes ou pequenos e a pessoa para quem o ato é realizado pode ou não estar ciente do ato. Segurar a porta do elevador para um estranho, doar sangue, visitar um parente idoso, servir sopa para moradores de rua, ensinar uma criança a escrever, auxiliar um colega a resolver um problema no trabalho, dar uma carona para alguém, cumprimentar a moça do caixa no supermercado, levar um pedaço de bolo para o vizinho que acabou de mudar, fazer um elogio sincero… Há muitas e diferentes maneiras de exercer o altruísmo, levando-se em consideração que a gentileza e a bondade são componentes essenciais de uma atitude altruísta que busca ver as outras pessoas com empatia e consideração. 

Os efeitos da gentileza no cérebro

Fazer algo de bom para outra pessoa promove uma sensação agradável que os neurocientistas chamam de efeito “brilho caloroso do altruísmo”. Um estudo de 2017, realizado na Universidade de Zurich, na Suíça, liderado pelos pesquisadores Philippe Tobler e Ernst Fehr, investigou como as áreas do cérebro se comunicam para produzir esse efeito. Três áreas do cérebro dos participantes foram mapeadas durante o experimento: na junção temporoparietal, onde o comportamento pró-social e a generosidade são processados; no estriado ventral, que é associado à felicidade; e no córtex orbitofrontal, onde pesamos os prós e contras durante os processos de tomada de decisão. Essas três áreas cerebrais interagiram de maneira diferente, dependendo se os participantes do estudo se comprometeram com a generosidade ou o egoísmo. Os resultados fornecem uma visão sobre a interação entre altruísmo e felicidade. Em seus experimentos, os pesquisadores descobriram que as pessoas que se comportavam generosamente eram mais felizes do que aquelas que se comportavam de maneira mais egoísta. A quantidade de generosidade, porém, não influenciou o aumento do contentamento. O altruísmo torna as pessoas mais felizes, mesmo que seus atos sejam apenas um pouco gentis ou generosos. Ou seja, ninguém precisa ter uma vida abnegada e totalmente dedicada aos outros para ser feliz. Aparentemente, a intenção de agir generosamente, por si só, gera uma mudança neural antes que a ação seja realmente implementada, ativando a área altruísta do cérebro e intensificando a interação entre essa área e a área associada à felicidade. 

 

Mais saúde pra quem é gentil

A relevância do altruísmo para a felicidade se dá pelo fato de que a prática da generosidade, da empatia e da gentileza exercem influência em diferentes aspectos da vida emocional. É o que mostra um estudo conduzido por Carolyn Schwartz, da Universidade Tufts, nos EUA, e Rabbi Sendor, do Instituto Herzl, em Israel. O estudo – cujos resultados foram publicados em 1999 – acompanhou mulheres com esclerose múltipla que se voluntariaram como apoiantes de pares para outros pacientes. As acompanhantes voluntárias receberam treinamento em coisas como “técnicas de escuta compassiva”, sendo instruídas a chamar os pacientes para conversar por 15 minutos. Ao final de três anos, a análise dos resultados obtidos mostrou que as voluntárias aumentaram sua autoestima, sua autoaceitação, sua satisfação com a vida, seus sentimentos de autoeficácia e de domínio sobre sua vida. Curiosamente, esses resultados positivos para as voluntárias altruístas foram muito maiores do que as vantagens para os próprios pacientes que foram atendidos por elas.

Já fez sua boa ação hoje? 

O filósofo grego Aristóteles defendia a ideia de que um dos grandes segredos para a felicidade é fazer as ações das quais nos orgulhamos. Aristóteles foi um dos filósofos que refletiu sobre a felicidade e o que pode nos tornar mais felizes. O conceito aristotélico de felicidade é a Eudaimonia, que consiste no propósito de se viver uma vida ética, voltada para o crescimento pessoal e o exercício do bem comum. Na visão de Aristóteles, a verdadeira felicidade acontece quando conduzimos nossa vida trabalhando para desenvolver o bom caráter. É a construção do bom caráter, portanto, que nos permite realizar plenamente todo o nosso potencial. Para Aristóteles, uma vida feliz é também uma vida admirável, uma vida na qual escolhemos fazer o que é bom para o adequado funcionamento da sociedade. Nesse sentido, a eudaimonia está diretamente vinculada à solidariedade e ao altruísmo que caracterizam a conduta cidadã. Aristóteles entendia que quando nossa atuação no mundo não é guiada pelo bom caráter, encolhemos quem podemos ser, minimizamos nosso potencial e nossas chances de ser feliz.

 

Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.