Será que o ambiente de trabalho tem mudado nesses últimos anos? Será que os valores e objetivos estratégicos das empresas evoluíram? E se sim, em qual direção?

Eu me lembro que em 1999 quando eu trabalhava como analista de sistemas em uma multinacional presente no mundo todo, uma gigante da tecnologia da época, fui convocada para uma reunião com a minha gerente e o gerente geral da empresa. O motivo da reunião não foi me dito, como nenhum incidente havia acontecido e não era época de avaliação de desempenho, achei estranho.  Quando cheguei na reunião fui colocada à frente dos meus gerentes, que me olharam nos olhos com seriedade e me disseram o seguinte:  “ Te chamamos aqui, porquê você não tem perfil de engenheira.”.  Eu olhei para eles um pouco surpresa e perguntei automaticamente; “E por quê acham que eu não tenho perfil de engenheira?”  E eles me responderam:  “Porque você sorri demais, está sempre feliz e diz bom dia para todo mundo.”  Confesso que, fui surpreendida por essa resposta, afinal não esperava ser repreendida por ser uma pessoa feliz e educada.  Isso aconteceu há exatamente 21 anos atrás.

Há apenas duas décadas as pessoas muitas vezes eram repreendidas por serem felizes no ambiente de trabalho.  Que bom que os tempos mudaram e hoje em 2020, segundo diversas pesquisas, a felicidade no trabalho passou a ser um assunto estratégico para várias empresas.  As top 30 melhores  empresas para trabalhar  listadas na Forbes desse ano e as top 30 melhores empresas para trabalhar aqui no Brasil, são empresas preocupadas com o bem estar do funcionário e em ter um cultura empresarial que assegure que a felicidade esteja sendo incorporada ao meio corporativo.  Hoje, já se sabe que profissionais felizes produzem mais, criam ambientes de trabalho mais produtivos, sendo assim, as pessoas ao redor deles também melhoram o seu desempenho.  Ou seja, felicidade no trabalho passou a ser considerada uma característica fundamental para o desenvolvimento já que a felicidade profissional individual também resulta na felicidade coletiva da empresa.

Della Bradshaw, do Financial Times, destacou alguns estudos sobre a busca da felicidade no ambiente de trabalho e como ela pode ser importante para os negócios. Ela citou a psicóloga e professora na Universidade de Administração de Cingapura, Christie Scollon, e sua pesquisa que mostra que pessoas mais felizes ganham mais dinheiro, são mais saudáveis e mais criativas na resolução de problemas.

Uma pesquisa publicada no Journal Of Applied Psychology mostra que os colaboradores com altos níveis de satisfação no trabalho são mais propensos a ajudar os outros e são mais cooperativos e felizes com o resultado de suas atividades.  Um outro estudo, realizado pela Net Impact-Rutgers University, mostra que 88% dos funcionários acreditam que, além de importante, é imprescindível ter felicidade no trabalho aliado a uma atmosfera positiva na vida pessoal.

MAS, O QUE LEVA À FELICIDADE NO TRABALHO?

A felicidade no trabalho significa coisas diferentes para diferentes grupos de pessoas e para diferentes profissões. A Fisher (2010) estudou o tema da “felicidade organizacional” e caracterizou da seguinte forma uma empresa feliz:

  • Apresentam culturas onde predomina o apoio e o respeito;
  • Proporcionam lideranças competentes, segurança no trabalho e reconhecimento;
  • Desenham o trabalho de forma a que este seja interessante e motivador;
  • Facilitam a aquisição e o desenvolvimento de competências;
  • Selecionam as pessoas de acordo com a sua adequação ao trabalho e à organização;
  • Trabalham essa adequação através de práticas de indução e socialização;
  • Reduzem os pequenos incômodos diários e procuram aumentar os fatores de satisfação;
  • Adotam práticas de gestão de alto desempenho.

Um ambiente de trabalho positivo e colaborativo é qualidade de vida. Pequenas ações, como dedicar alguns minutos por dia para um alongamento ou uma celebração numa data comemorativa, podem ajudar as empresas a se tornarem mais atraentes e também mais produtivas.

A realização de programas como, por exemplo, incentivo ao uso de bicicleta, programas de saúde, oferta de cursos como inteligência emocional,  mindfullness, etc. O que também proporciona a melhora na autoestima, da autoconfiança e reduz a ansiedade de todos.

A Microsoft e Toyota, por exemplo, introduzem técnicas para gerar o flow no ambiente profissional para o aumento dos níveis de prazer, felicidade e bem-estar.

Organizações como Google e Facebook são citadas como exemplo de empresas que adotaram práticas positivas em relação aos seus funcionários. A empresa de Mark Zuckerberg foi recentemente eleita pelos próprios funcionários como a melhor empresa para se trabalhar.

Outro exemplo é a construtora Lendlease, que criou espaços de descanso e interação para seus funcionários. Os funcionários da empresa têm dois dias por ano para fazer algum trabalho voluntário e três dias para se dedicarem à própria saúde.

A Stamp promove vários programas que vão de almoço educativo até o estímulo de programas voluntários como adoção de animais, ajuda a comunidade carente local, entre outros.

De acordo com a Deloitte, Consultoria Empresarial especializada em Capital Humano, estudos feitos mostram que um número crescente de empresas no Brasil também repensa seus programas de recompensas e desenvolvimento dos funcionários, buscando ações que propiciem maior bem-estar. 92% dos executivos entrevistados apontaram a atenção com o bem-estar como uma questão importante para suas atividades profissionais no futuro. Por trás disto estão casos de sobrecarga (física e emocional), busca das pessoas por mais qualidade de vida e flexibilidade de trabalho.

Entre os exemplos citados pelo estudo está o da Danone, que fornece assistência médica para grande parte das doenças significativas e licença parental (para homens e mulheres) a todos os seus funcionários no mundo. A medida, segundo o estudo, não só é importante para garantir o bem-estar, mas também para tornar os funcionários da companhia uma espécie de “embaixadores de saúde”.

Premiada como uma das melhores empresas para se trabalhar no Ceará e no Brasil, para o Beach Park é muito valioso que os colaboradores estejam bem em todos os âmbitos. Cecília Vieira, gerente de RH da empresa, afirma que os projetos desenvolvidos surgiram a partir das necessidades dos próprios colaboradores. “Necessidades que muitas vezes não são solucionadas a partir do trabalho propriamente dito, o objetivo é ir além, para fora do contexto organizacional, atingindo a vida de uma maneira geral”, diz ela.

Na maioria das vezes, os resultados percebidos levam tempo, pois devem estar atrelados à cultura das empresas. No caso do Mercadinhos São Luiz, há mais de 20 anos é oferecida uma Colônia de Férias para os filhos de funcionários. Entre as práticas mais recentes, estão grupos voltados ao desenvolvimento e crescimento, ao coaching, capacitação, formação de sucessores e equipes voltadas para qualidade de vida, como o grupo de gestantes.

Empresas são constituídas essencialmente por pessoas, logo se as pessoas forem felizes, a empresa também o será, e está demonstrado que empresas felizes são mais produtivas e consequentemente mais eficazes e rentáveis, tornando-se um diferencial competitivo no mundo empresarial.

A maioria de nós ou trabalhamos em uma empresa ou somos empresários, formamos a base de nossa sociedade, sendo assim estimular a felicidade empresarial é extremamente importante pois nos dá a oportunidade de transformar o mundo em que vivemos.  Pessoas felizes, fazem empresas felizes. E como a felicidade contagia, pessoas mais felizes tornam o mundo mais feliz.

Flavia Brotto