“Assim como os lírios d’água se retraem quando a luz do sol se desvanece, a nossa mente também se retrai quando o que é positivo desbota.”

(Barbara Fredrickson, PhD)

Ter uma boa autoestima não significa ser uma pessoa vaidosa. Às vezes, pelo contrário. Do mesmo modo, ser uma pessoa que cuida de si e de suas necessidades não significa ser uma pessoa egoísta. Parece algo simples de compreender, mas a verdade é que costumamos confundir profundamente estas questões na vida prática, e sofremos por conta disto.

Todo mundo conhece estes exemplos (ou já passou por eles): uma mãe que está sempre cansada com uma família demandante e não tem tempo de cuidar de si, ou uma profissional que está sempre disponível para os assuntos de trabalho mas quase nunca consegue tempo para se dedicar às atividades que realmente gosta, ou um amigo que está sempre envolvido com os compromissos da namorada e já não encontra tempo para estar com os próprios amigos ou ainda realizar atividades que antes do relacionamento lhe eram caras e importantes.

Se você observar com cuidado vai notar que há uma variável em comum, que se repete nos três exemplos corriqueiros que citei acima: a falta de tempo para si e para suas próprias demandas. É possível argumentar: “Ah! Mas quando você cuida de seus filhos, atividades de trabalho e relacionamento amoroso também está cuidando de domínios da sua vida que são importantes para suas próprias necessidades”. Resposta: “Sim, é verdade. E é aí que mora o perigo!”

O perigo está no descompasso deste tempo. O perigo está na dedicação desatenta às necessidades do mundo que nos envolve sem uma avaliação cautelosa, ainda que este mundo contenha as pessoas que amamos. O perigo está na tentativa de acompanhar e tomar para si os ciclos de outras pessoas ao invés de observar e aprender com os seus ciclos de vida. O perigo mora na intenção de agradar o outro como se este fosse um objetivo válido e não uma consequência desejável (a depender das circunstâncias).

A chave mágica para se proteger contra estes perigos é o autocuidado. A poção mágica que pode ajudar a virar a chave do autocuidado se chama atenção, um medicamento natural e sem contraindicações. Para altas doses de desatenção com as suas necessidades mais íntimas, pequenas gotas de atenção plena nas atividades diárias, todos os dias, podem iniciar um processo frutífero de olhar para dentro de si mesmo.

Os resultados positivos podem começar com o estabelecimento de limites saudáveis nas relações e no trabalho, incluindo o uso de uma palavra mágica, a mais temida de todos os tempos: “Não”, incluída em suas formas variadas “Hoje não posso”, “Agradeço pelo convite, mas neste momento não será possível”, e ainda acompanhada das expressões mais temidas “Não gostei”, “Não quero”, “De jeito nenhum!” e “Nem sonhando!”. Enfim, a liberdade.

Contudo, fica o alerta: as primeiras doses podem ser difíceis de ser ingeridas por uma mente acostumada a vaguear, e não há problema algum neste processo¹. Basta continuar. E tentar mais uma vez. Estar atento ao presente nos desperta para os ritmos do corpo que habitamos, para as emoções que brotam dentro deste corpo e nos ensinam sobre nossos limites, dificuldades, potencialidades, qualidades e vontades.

Você pode respirar, sentir, aquietar, refletir, esperar, agir e se observar com curiosidade. Abrir as portas e janelas do corpo para os pequenos rituais diários que relaxam, revigoram, fortalecem, agitam, mas que sobretudo permitem uma vida que respeita os seus ciclos. A autoestima² é como uma bela casa que construímos ao longo de toda a vida, não é algo que conseguimos modificar da noite para o dia, e as práticas de autocuidado (ex. meditativas, relaxamento, aprendizado, cuidados de beleza) são os tijolos que ajudam a compor as paredes desta casa. Um tijolo por vez. Um dia de cada vez.

 

Marcella Bastos Cacciari

Referências:
¹ Teasdale, J., Williams, M., & Segal, Z. (2016). Manual prático de mindfulness: meditação da atenção plena. São Paulo: Editora Pensamento.
² Hutz, C. S. (2014). Avaliação em psicologia positiva. Artes Médicas Editora.