“Quando a circunstância é boa, devemos desfrutá-la; quando não é favorável devemos transformá-la e quando não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos.”

 (Viktor Frankl)

Tome um breve momento, e reflita: o que você anda esperando do trabalho? Pode-se enumerar uma série de expectativas, entre elas: 1) maior remuneração e benefícios financeiros, 2) reconhecimento e valorização profissional, 3) satisfação e felicidade no trabalho. São todas expectativas válidas, contudo, parece que cada vez mais tais expectativas são excessivamente idealizadas e distantes da realidade que nos espera nas atividades de trabalho.

 

Muitos são os fatores que colaboram para uma realidade difícil nos postos de trabalho: baixa remuneração, altos índices de desemprego, precarização, ambientes insalubres, ambientes altamente competitivos, entre outros. Conseguimos compreender com facilidade quando alguém adoece no trabalho por conta de cobranças excessivas, pouca valorização e baixos salários. E, de fato, estes fatores externos são indicadores importantes sobre o bem-estar e a qualidade de vida no trabalho (Mills, Fleck, & Kozikowski, 2013).

 

O problema é que uma outra questão se encontra negligenciada constantemente. Vamos imaginar o seguinte cenário, também bastante comum: alguém trabalha em uma boa empresa, recebe uma excelente remuneração, é valorizado e reconhecido por pares, mas, ainda assim, apresenta um quadro de ansiedade grave que exige cuidados profissionais. Neste caso, já não podemos contar somente com os fatores externos associados ao trabalho para compreender a origem desta situação. Tampouco, podemos explicá-la pela via única do mundo do trabalho.

 

Isso pode nos remeter a algo óbvio, e que passa despercebido por muitas vezes na construção das subjetividades na atualidade: o trabalho não é o único espaço de vida relevante para a felicidade de uma pessoa adulta, e nem deveria ser. Voltando ao cenário ilustrado acima: alguém pode ser o trabalhador ótimo em um trabalho incrível, mas, se por acaso essa é a única forma de realização deste indivíduo na vida, então podemos dizer, sem medo de errar, que dificilmente estamos lidando com uma pessoa satisfeita e feliz com a própria história.

 

Neste mês, foi lançado o filme SOUL (Disney-Pixar, 2020), que toca neste ponto sensível e conta a história de um músico que tinha o anseio de ser reconhecido pelo seu trabalho, mas sofre um acidente grave justo no dia em que teria a oportunidade profissional dos seus sonhos. Os diálogos e insights do personagem após fazer uma viagem para o “outro lado da vida” nos proporciona refletir sobre as alegrias e satisfações que as atividades de trabalho podem nos permitir, e sobre aquilo que é impossível esperar do trabalho e que só pode ser conquistado em outros espaços de vida, ou através das nossas escolhas conscientes e do nosso modo único de ser e estar no mundo.

 

Neste sentido, alimentar expectativas sobre o trabalho pode ser um exercício saudável e motivador, desde que haja a possibilidade de diálogo entre as demandas da realidade e aquilo que cada um de nós espera do trabalho em si. Assim, como sugeria Viktor Frankl (2013), ao invés de nos perguntarmos sobre o que esperamos da vida (ou do trabalho), deveríamos nos indagar sobre o que a vida espera de nós. Talvez, deste modo, o encontro com o propósito e a felicidade fiquem mais próximos de ser alcançados na vida real.

 

Texto escrito por Marcella Bastos Cacciari

Referências:

¹ J. Mills, M., R. Fleck, C., & Kozikowski, A. (2013). Positive psychology at work: A conceptual review, state-of-practice assessment, and a look ahead. The Journal of Positive Psychology, 8(2), 153-164.

² Frankl, V. E. (2013). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração (Vol. 3). Editora Sinodal.

³ Disney-Pixar (2020). Soul: uma aventura com alma. Estados Unidos. 101 minutos.