“Cada momento é uma escolha. Não importa quão frustrante, chata, limitadora ou opressiva for a nossa experiência, podemos sempre escolher como reagir.”

(Edith Eva Eger em A Bailarina de Auschwitz)

Martin Seligman, considerado o pioneiro do movimento científico da psicologia positiva, trabalhou durante mais de 30 anos com pesquisas na área de psicopatologia, e foi o principal autor de uma das teorias de facetas da personalidade mais importantes das últimas décadas, a teoria do desamparo aprendido (Schultz & Schultz, 2002).

Seligman formulou seu problema de pesquisa ao observar um experimento de condicionamento clássico com cães feito em duas etapas. Na primeira etapa, os bichinhos estavam sendo ensinados a associar um determinado som ao choque elétrico que recebiam através de um piso, e na segunda etapa, os animais eram colocados em uma caixa com dois compartimentos contendo uma pequena divisória (como uma pequena cerca). Neste momento, o objetivo era que os cães procurassem “fugir” dos choques aplicados no interior da caixa, pulando a cerca ao ouvir o som emitido na primeira etapa (fase em que o som foi associado aos choques). Mas não foi o que ocorreu. Quando receberam os choques, eles começaram a deitar, choramingar, e não fizeram nenhuma tentativa de fugir. Ou seja, o experimento parecia ter dado errado.

No entanto, Seligman compreendeu a reação dos cães de uma outra forma. Ele notou que na primeira parte do experimento os animais aprenderam que estavam “indefesos” diante dos choques. Nenhuma das respostas emitidas naquele momento ajudou a resolver as circunstâncias da situação. Assim, quando foram expostos aos choques novamente, agiram como se suas tentativas fossem “inúteis”, e sequer procuraram uma forma de escapar da caixa, pois haviam generalizado este modo de reagir diante dos choques. De forma análoga, os seres humanos também poderiam experimentar essa percepção de total ausência de controle sobre o ambiente, que levaria ao que ele denominou, algum tempo depois, de desamparo aprendido.

Desamparo aprendido

No desamparo aprendido, as pessoas aprendem ao longo de sua história de vida que “não vale a pena tentar”, que “as coisas são assim mesmo”, que “as pessoas não são confiáveis” ou que o “mundo é um lugar perigoso”. Neste cenário, a conformidade e a passividade tendem a dominar a vida da pessoa em sofrimento (Klein, Fencil-Morse, & Seligman, 1976). É como se não houvesse jeito de resolver situações difíceis, e ainda mais, como se as circunstâncias que envolvem estas situações fossem duradouras e permanentes (Peterson & Seligman, 1983).

Talvez você conheça alguém que apresente estas características, ou você já percebeu as coisas desta forma, e acredite, isso é algo relativamente comum.

Mas a história desta teoria não acaba por aí. Como vocês já sabem, nos capítulos seguintes, Seligman deu início ao que conhecemos hoje como psicologia positiva ou ciência da felicidade. Da mesma forma que acontece com muitos teóricos ilustres da psicologia, ele descobriu em sua própria biografia que ainda não estava satisfeito com as respostas que havia encontrado para lidar com o sofrimento humano, e o seu trabalho com a psicoterapia tradicional parecia estar ficando cada dia mais “limitado”. É aqui que temos uma grande reviravolta. Existe um pilar da psicologia positiva que está implícito em quase todas as teorias, técnicas e construtos que pertencem a este movimento, e a partir de agora você sempre vai percebê-lo.

Para além da sobrevivência

É o seguinte: a cura é importante e sempre devemos buscar o cuidado adequado das feridas e a garantia da sobrevivência, mas, a sobrevivência não é o suficiente. Além de sobreviver, é preciso florescer (Seligman, 2011). E o que isso significa na prática? Significa que não devemos buscar o retorno a um estado anterior de coisas ou um tipo de estado “de cura” (uma estaca zero). Poroutro lado, nossas intervenções e ações no mundo precisam facilitar, além do reconhecimento da força da sobrevivência após momentos devastadores, a permissão de dar mais passos adiante, reconhecer as bençãos que nos acontecem cotidianamente, abraçar as nossas maiores qualidades e vislumbrar a descoberta do propósito.

Mas, e a teoria do desamparo aprendido? Bom, podemos dizer que ajudou na elaboração de uma outra, bem mais “conectada” com a psicologia positiva: a teoria dos estilos explicativos. Resumidamente, os estilos explicativos correspondem a maneira como explicamos a ausência de controle das circunstâncias ambientais (tal como ocorre em situações de desamparo). No estilo pessimista, a pessoa tende a atribuir os problemas em questão a si mesma de forma inapropriada (ex. Isso sempre dá errado comigo), de forma duradoura e abrangente, o que fomenta o desamparo aprendido. Já no estilo otimista, a pessoa consegue perceber que os eventos adversos podem ter causas externas a ela (ex. Perdi o ônibus porque ele passou 5 minutos antes do horário), compreende que são passageiros, ainda que possam demorar, e específicos do contexto, o que protege e ajuda a prevenir o desamparo aprendido (Gillham, Shatté, Reivich, & Seligman, 2001).

Por fim, boas notícias!

Seligman descobriu que os princípios que ajudam a entender a dinâmica do desamparo aprendido e do estilo explicativo pessimista que o promove, também permitem a compreensão do estilo otimista e seus benefícios para a saúde em geral. Temos como resultado o otimismo aprendido e a possibilidade de técnicas e intervenções que podem promovê-lo.

Olha só que boa notícia: podemos aprender e descobrir novas formas de incluir o estilo explicativo otimista nas nossas vidas. Demais, né!?

Texto por Marcella Bastos Cacciari, para a cartilha do curso de extensão “Psicologia da Felicidade e do Bem- estar” da Ufes (2020).