Pare e pense nas lembranças felizes da sua vida. Pensou? Aposto que a maioria delas não envolve dinheiro ou status social, não implica pré-conceitos estéticos ou demonstrações melodramáticas de amor. As lembranças felizes da vida costumam girar em torno de coisas muito simples, vivências do dia a dia, aquelas pequenas coisinhas para as quais nós não damos a importância devida no decorrer dos dias.
Na maioria das vezes nós confundimos as coisas. Costumamos achar que a alegria que sentimos ao receber uma promoção ou concluir um negócio é devida às possibilidades financeiras que isso representa. Bobagem. Ficamos alegres por nos sentirmos reconhecidos. Porque mesmo que o dinheiro continue a crescer na nossa conta, a felicidade não vinga se não pudermos constatar que o trabalho que realizamos faz diferença na roda da vida.
Quando alguém nos declara amor de forma ostensiva, tendemos a achar que nosso contentamento vem da dramaticidade da performance, do número de flores recebidas ou da extensão do poema recitado. Esqueça isso. Nós queremos compartilhar o nosso amor. Se as flores continuarem a chegar e os poemas continuarem a ser escritos, mas a pessoa não estiver lá para dividir tudo aquilo que somos e podemos ser – nos momentos de fracasso ou nos de sucesso – a felicidade não vinga.
Ao conseguirmos comprar a casa sonhada, nos inclinamos à ideia de que podemos ser mais felizes porque teremos mais conforto ou mais status. Pode ser, mas se a casa for grande e bela e não houver com quem habitá-la – amigos, família ou nosso amor – e se ela não representar para você a chance da segurança objetiva, que lhe permitirá correr atrás de outros sonhos, mas apenas a confirmação de seu progresso financeiro. Então, a felicidade não vingará.
Não deveríamos perder tanto tempo da vida investindo em coisas que não podem nos fazer felizes: como a busca desenfreada por dinheiro ou pela eterna juventude, a dedicação a uma crença que não confere significado à vida ou uma relação na qual não comungamos do amor. A vida é curta.
Eu sei disso, e você também. Então por que continuamos a viver como se tivéssemos todo o tempo do mundo? Nós não temos. A vida é agora. Pega o telefone e liga para aquela pessoa que você gosta tanto mas que há muito tempo não vê. Diga eu te amo a quem você pode dizer. Faça alguma coisa decente por alguém – inclusive por você mesmo – agora.
Ser feliz implica na capacidade de entrar em sintonia com o fluxo da vida.
O fluxo da vida não nos espera, ele simplesmente flui. Em cada momento, em cada milissegundo do tempo que nossos relógios, calendários e células contabilizam. A vida passa, estejamos usufruindo dela ou não. Sendo assim, a felicidade configura-se numa combinação rítmica entre o que nós precisamos e o que nós desejamos, entre o que podemos viver e o que gostaríamos de realizar.
Podemos mesmo dizer que o potencial para a felicidade é, essencialmente, viver cada experiência como se fosse a última, porque pode ser. Seja a experiência ruim ou boa, prazerosa ou não, vivê-la integralmente nos ajuda a definir o que é realmente importante para nós em nossas vidas. Somente conseguindo identificar o que realmente queremos – mesmo que esse querer seja mutante – é que podemos priorizar e reconhecer aquilo com o que estamos dispostos a compartilhar nosso tão precioso tempo.
E quando conseguimos fazer isso, nos damos conta de que ser feliz é viver a vida que temos para ser vivida com todos os nossos recursos sensoriais. Porque o mundo da nossa vida é o mundo dos sentidos, é através deles que experimentamos o melhor e o pior daquilo que podemos ser. E se os sentidos são a porta para a experiência humana, então eles também são a porta para a felicidade terrena.
Assim, a felicidade pode ser vista como o fruto da experiência humana em sua totalidade, e não apenas momentos apoteóticos isolados no fluxo do tempo. A felicidade seria, portanto, um estado que se oportuniza pela nossa capacidade de usufruir da experiência. A felicidade não é o que vivemos, mas como vivemos. Por isso a importância dos momentos mais ordinários da nossa vida, porque é nas situações mais confortáveis como aquelas às quais estamos habituados, ou nas mais duras, que podemos revelar toda a nossa capacidade de viver a vida.
Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.