No final dos anos 1960, o Dr. Herbert Benson, da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, realizou estudos científicos para testar os benefícios da meditação para a saúde. Os resultados obtidos pelo Dr. Benson indicaram que a meditação poderia ser usada no tratamento auxiliar de problemas fisiológicos como pressão alta, doenças cardíacas e enxaquecas. O médico e pesquisador observou que durante a meditação ocorria a diminuição dos batimentos cardíacos e da respiração dos pacientes testados, em paralelo, ele também observou que o cérebro sob estado meditativo tinha a atividade alfa aumentada, uma característica dos estados de relaxamento. Uma das constatações mais significativas dos estudos do Dr. Benson, porém, é a descoberta de que a meditação contribui para minimizar ou eliminar pensamentos obsessivos, ansiedade, sintomas depressivos e sentimentos hostis.
Benefícios da meditação diária
As descobertas pioneiras do Dr. Benson vêm sendo confirmadas por estudos mais recentes. É o caso do estudo liderado pela Psicóloga Britta Hölzel, também da Universidade de Harvard, publicado em 2011. Nesse estudo, exames de ressonância magnética mostraram que as pessoas que meditaram por cerca de 30 minutos diários durante oito semanas tiveram mudanças mensuráveis na densidade da massa cinzenta em partes do cérebro associadas à memória, à sensação de autoestima, à empatia e ao estresse. O aumento da massa cinzenta ocorreu no hipocampo, uma área importante para a aprendizagem e a memória. As imagens também mostraram uma redução da massa cinzenta na amígdala, que é uma região ligada à ansiedade e ao estresse. Os resultados encontrados por Hölzel e sua equipe mostram que as pessoas que adotaram a prática da meditação relataram um aumento no nível de felicidade e mais empatia em relação às emoções dos outros.
Aparentemente, os benefícios da meditação para o cérebro também atingem as pessoas idosas. É o que mostrou um estudo de 2014 realizado por uma equipe de cientistas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
Meditação para prevenir envelhecimento
Por meio de escaneamento cerebral, a equipe liderada pela Dra. Eileen Luders descobriu que as pessoas idosas que meditam regularmente não perdem sua massa cinzenta tão rapidamente quanto as que não praticam meditação. De acordo com os resultados obtidos no estudo, os cérebros daqueles que meditam têm tecido visivelmente mais espesso no córtex pré-frontal, que é a região do cérebro responsável pela atenção e controle. As implicações dessas descobertas são muito significativas do ponto de vista da saúde física e mental, uma vez que indicam que a meditação pode impedir que as células cerebrais morram, o que normalmente acontece à medida que envelhecemos. Assim como pode aumentar o tamanho do cérebro de uma pessoa em várias regiões cruciais. Além disso, há evidências de que a meditação pode melhorar a capacidade cognitiva e os níveis de concentração, contribuir para o controle do estresse e aumentar a sensação de bem-estar.
O cérebro de quem medita
A relação entre bem-estar e meditação gera condições para que o hábito de meditar contribua para a vivência de felicidade. É o que aponta os estudos conduzidos pelo Dr. Wataru Sato, na Universidade de Kyoto, no Japão. A pesquisa do Dr. Sato tem sido motivada pela busca de entendimento do que proporciona, ao nível cerebral, a sensação de satisfação geral e bem-estar nas pessoas. No campo científico já é bem conhecido quais neurotransmissores estão associados as sensações de prazer ou relaxamento, por exemplo, mas pouco se sabe sobre os mecanismos neurais responsáveis pelo sentimento de felicidade. Para tentar avançar nesse campo, os cientistas liderados pelo Dr. Sato pediram a 51 voluntários que avaliassem seus próprios níveis de felicidade e, em seguida, examinaram seus cérebros. O que eles descobriram é que uma área do cérebro chamada precuneus era maior em pessoas que se sentiam mais felizes. Estudos anteriores mostraram que a meditação regular pode aumentar a massa cinzenta no precuneus, o que poderia explicar por que aqueles que meditam relatam mais sentimentos de contentamento geral e até de felicidade do que quem não pratica a meditação regularmente.
As descobertas feitas na Universidade de Kyoto apontam para a ideia de que o precuneus é particularmente importante para a felicidade subjetiva.
O poder do mindfulness
Ou seja, essa região do cérebro estaria associada a ações e percepções positivas frente a uma situação qualquer, que é o que cientificamente se entende por felicidade subjetiva, aquela que resulta de uma disposição emocional e comportamental frente à vida caracterizada pela positividade. Assim, os resultados obtidos nas pesquisas sobre a relação entre meditação e felicidade sugerem que as práticas que proporcionam um estado psicológico positivo contribuem para aumentar o volume de massa cinzenta no precuneaus, gerando maior felicidade subjetiva. Em termos objetivos isso representa o aumento da capacidade de lidar com os desafios e as oportunidades da vida cotidiana de maneira mais resiliente, mais otimista, mais engajada e mais satisfatória. Segundo pesquisadores da área, como Shawn Achor e Jon Kabat-Zinn, para se alcançar os benefícios propiciados pela meditação a regularidade da prática é mais relevante do que o tempo diário que se passa meditando. Para Shawn Achor, dois minutos de meditação por dia já seriam suficientes para treinar o cérebro. O pesquisador argumenta que a meditação nos faz felizes porque reduz o estresse e a ansiedade causados por vidas agitadas e multitarefas. Jon Kabat-Zinn, que é o responsável pela sistematização do modelo de meditação Mindfulness, sugere meditação diária com duração de 30 a 45 minutos. Para ele, o cultivo da atenção plena, propiciado pela meditação, ensina a viver a vida como ela realmente importa no momento presente, em vez de viver constantemente em arrependimento ou antecipação.
A vida no momento presente
Nos estudos sobre felicidade, o engajamento com o momento presente tem sido apontado como atitude fundamental para a experiência de felicidade. A peça seminal da pesquisa neurocientífica que apontou nessa direção foi publicada em 2004, sendo liderada pelo Dr. Richard Davidson. Em 1992, Davidson foi convidado pelo Dalai Lama para entrevistar monges sobre suas vidas mentais e emocionais, dez anos após ele investigou o cérebro do Monge Matthieu Ricard. Os exames do cérebro mostraram ondas gama excepcionalmente altas, que só surgem com pensamentos intensamente focados. Quando o experimento foi repetido com outros oito monges, os resultados foram semelhantes, revelando que áreas do cérebro responsáveis pelas emoções positivas foram ativadas durante a meditação, especialmente no córtex pré-frontal esquerdo.
O mundo sob novas perspectivas
Em 2008, Barbara Fredrickson e colaboradores publicaram os resultados de um estudo, realizado com 139 adultos, que mostraram que a prática de meditação diária aumentou a experiência de emoções positivas. O que, por sua vez, produziu aumento da atenção, percepção de propósito na vida e sentimento de apoio social. Resumidamente, o que os estudos sobre os benefícios da meditação indicam é que: quando meditamos adquirimos a capacidade de pensar de maneira mais objetiva, racional e lógica. Isso nos confere a habilidade de reagirmos mais empaticamente às situações e menos passionalmente, nos ajudando a enxergar os eventos a partir sob várias perspectivas. Isso promove o desenvolvimento de uma serenidade que leva a uma comunicação mais eficaz nos relacionamentos. E se há um pensamento unânime nos estudos sobre a felicidade é que a qualidade dos relacionamentos que construímos está diretamente associada com o quanto nos sentimos felizes com a própria vida.
Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.