Uma das coisas que contribuem para a felicidade é ter uma perspectiva positiva de futuro. E uma maneira segura de construir essa perspectiva é estabelecer metas de vida. As metas nos ajudam a criar foco, motivação e visão, viabilizando a transformação de nossos valores e sonhos em realidade. Isso ocorre porque ao estabelecer metas somos levados a formular planos de ação para implementar as etapas necessárias para atingir os objetivos estabelecidos. Além disso, observar-se no processo de definição, planejamento e alcance de metas é um exercício motivador que favorece a autoconfiança e promove bem-estar. O fato é que não se pode construir felicidade sem ter uma sensação de significado, esperança e propósito na vida. E a felicidade não acontece apenas, ela é produto das nossas ações diárias que exigem um movimento consciente para pensar, planejar e buscar coisas que são importantes para nós. Nesse sentido, as metas para nos motivar precisam ser desafiadoras o suficiente para nos estimular, mas precisam ser também alcançáveis. O estabelecimento de metas inalcançáveis – cuja realização requer habilidades, condições e recursos além dos que dispomos – gera frustração, ansiedade e uma carga de estresse desnecessária. A escolha de objetivos ambiciosos, mas realistas, dá uma orientação à nossa vida e traz uma sensação de realização e satisfação quando os alcançamos.

Uma vez que se estabeleça algumas metas para a vida, sejam metas de carreira ou familiares, de relacionamento social ou de autoconhecimento, metas diárias ou de longo prazo, é pertinente entender quais são os objetivos almejados. Esse entendimento é o que servirá para se estabelecer metas que podem ser alcançadas. Estudos científicos como o publicado em 2014 por  Bruce Headey, da Universidade de Melbourne, na Austrália, têm investigado os benefícios do estabelecimento de metas para ajudar a manter uma vida mais feliz e saudável. Ser feliz exige muita prática e muito trabalho, e a definição de metas é uma parte da equação. O alcance de objetivos é mais do que a simples somatória de fatores como trabalho duro e disciplina, ele depende enormemente do que acontece no nosso cérebro. Quando conseguimos algo que queremos – seja uma promoção, uma vaga para estacionar ou um afago de alguém que amamos – nosso cérebro libera dopamina. A dopamina é um neurotransmissor, uma substância química que transmite informações entre neurônios, que ajuda a controlar os centros de recompensa e prazer do cérebro. Pesquisadores como Andrew Westbrook e Todd Barver, da Universidade de Washington, indicam que a associação entre a dopamina e certas regiões do cérebro, ligadas ao sentimento de recompensa e de prazer, tem relação com o fato de que esse neurotransmissor também está envolvido na regulação do movimento e das respostas emocionais. Isso ocorre porque a liberação de dopamina no cérebro nos motiva a agir em direção a metas, desejos e necessidades; ao mesmo tempo em que gera uma onda de prazer reforçador quando alcançamos o que desejamos e/ou precisamos. Assim, a dopamina nos permite não só ver as recompensas, mas também agir para avançar em direção a elas.

Quanto mais progredimos, mais nos sentimos felizes

Quando a dopamina flui para o caminho de recompensa do cérebro, que envolve regiões fundamentais para o prazer, o aprendizado e a motivação, não apenas sentimos maior concentração, mas somos inspirados a reviver a atividade que causou a liberação química em primeiro lugar. É por isso que o cultivo de pequenas vitórias pode nos impulsionar para a busca de conquistas maiores, uma vez que quando estabelecemos metas e as realizamos, nós e nossos cérebros somos recompensados. Com isso, entende-se ser possível manipular os níveis de dopamina no cérebro definindo metas diárias e, em seguida, cumprindo-as. Esta é uma das razões pelas quais as pessoas se beneficiam das listas de tarefas. O prazer de eliminar uma tarefa da lista que foi cumprida está associado à liberação de dopamina, e sempre que isso acontece o seu cérebro vai querer que você repita o comportamento associado a essa onda de satisfação. Ao contrário, os efeitos da falta de progresso na realização de metas previamente estabelecidas não apenas prejudicam o nosso desempenho como minam nossa felicidade e satisfação com a vida. O Grupo de Pesquisa em Procrastinação da Universidade de Carleton, no Canadá, descobriu haver forte correlação entre depressão e procrastinação. Na medida em que estamos progredindo em nossos objetivos, estamos mais felizes emocionalmente e mais satisfeitos com nossas vidas. 

Saber definir a meta é a chave

A pesquisa sobre a busca de metas e bem-estar revela um ciclo interessante e consistente entre o progresso de nossos objetivos e nossos relatos de felicidade e satisfação com a vida. Curiosamente, as emoções positivas têm o potencial de motivar comportamentos direcionados por objetivos e por processos de autorregulação e de autocontrole que contribuem para nos manter na tarefa, e que são necessários para o progresso ou a obtenção de metas adicionais. É por isso que os tipos de metas que você define estão associados à sua felicidade. É o que propõe o pesquisador Bruce Headey, da Universidade de Melbourne, na Austrália. O Dr. Headey tem estudado a relação entre metas de vida e felicidade há mais de uma década. Segundo ele, ao estabelecermos metas que envolvam o bem-estar de outras pessoas, além do nosso, temos mais chances de obter a satisfação total com a vida. As metas dirigidas à satisfação dos próprios desejos provaram ser prejudiciais à satisfação com a vida. Isso ocorre porque, em geral, as metas voltadas para propósitos egoístas tendem a se voltar para a busca de ganhos materiais. O problema, segundo o pesquisador, não é a busca pela realização de objetivos pessoais, mas a ênfase exagerada que se coloca neles. O equilíbrio entre o estabelecimento de metas estritamente pessoais e metas voltadas para o bem de outras pessoas oferece maiores chances de felicidade. Em acordo, o pesquisador Ken Sheldon, da Universidade de Missouri, nos EUA, que é um especialista nos estudos sobre emoção, motivação e bem-estar, descobriu em suas pesquisas que os objetivos que aumentam os sentimentos de autonomia, competência ou conexão com os outros levam a uma felicidade maior.

Por Angelita Scardua, psicóloga e especialista em estudos sobre Felicidade.