“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
(Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas)
Muito se fala sobre a “resiliência”. Alguns acreditam que este é um simples artifício dos animadores de palco para motivar suas plateias. Talvez os “usos” da palavra possam ser questionados, mas a importância do termo é inegável. Pesquisadores das vulnerabilidades humanas e do trauma construíram este conceito ao longo de décadas e o desenvolveram com a intenção de abarcar uma descoberta curiosa: nos lugares em que, por vezes, se procuravam traumas e comportamentos disfuncionais, os pesquisadores encontravam força e criatividade¹.
Ou seja, do mesmo modo que contextos de vulnerabilidade de todos os tipos (ex. violência, negligência, doenças crônicas) pareciam influenciar negativamente o comportamento e as atitudes das pessoas, como uma ponte para caminhos sinuosos ou mortíferos ao longo da vida, também não era incomum que isso simplesmente não acontecesse². Neste sentido, é possível observar que pessoas que vivenciaram situações potencialmente dolorosas e traumáticas avançam nos desafios diários, desenvolvem e até ampliam suas habilidades após as adversidades, e algumas carregam consigo uma certa “alegria de sobrevivente”.
É importante lembrar que este fato não isenta de sofrimento aqueles que apresentam histórias de superação, pelo contrário. As pessoas que superam as dificuldades concretas da existência também sofrem, ficam “quebradas” ou deprimidas, passam por momentos de apatia, arrependimento e dúvidas paralisantes. [Tenho certeza de que você consegue pensar em três pessoas conhecidas que já conseguiram se superar em momentos realmente desafiadores]
Apesar de ser um fenômeno social e psicológico comum, e não uma “raridade”, a forma e os contornos que a resiliência assume na biografia de cada pessoa são únicos. É algo que não se repete. O tempo que se leva neste processo também é pessoal, apesar de ser influenciado pelo ambiente (ex. apoio familiar, suporte emocional, suporte material). Não existe uma hora certa, mas “o momento” de cada pessoa.
A beleza da sobrevivência está na manhã seguinte, e no dia seguinte, e depois. Temos aqui dois lados de uma mesma moeda: de um lado o aprendizado sobre os seus próprios limites e vulnerabilidades³, e do outro, o aprendizado sobre a sua força para prosseguir (e a maneira única como ela se manifesta). A psicologia positiva chama isso de crescimento pós-traumático²: todo o arcabouço proveniente daquilo que aprendemos e os “presentes” que ganhamos por enfrentar os nossos maiores medos.
A resiliência é, portanto, muito diferente de ser alguém “inquebrável” diante da incerteza, e muito mais do que “saber recolher os próprios cacos e colar de volta” quando algo muito devastador acontece. Refere-se aos pequenos aprendizados que temos quando tentamos colar estes cacos, que permitem construir uma peça única em seu estilo, ao mesmo tempo que ajudam a olhar com mais profundidade e perspectiva para os desafios do futuro.
Marcella Bastos Cacciari
Referências:
¹ Yunes, M. A. M. (2003). Psicologia positiva e resiliência: o foco no indivíduo e na família. Psicologia em estudo, 8(SPE), 75-84.
² Seligman, M. E. (2011). Florescer. Rio de Janeiro: Objetiva.
³ Brown, B. (2010). Brené Brown: The power of vulnerability. TED TALK.