{"id":1345,"date":"2019-11-04T10:49:07","date_gmt":"2019-11-04T12:49:07","guid":{"rendered":"http:\/\/behappier.app\/?p=1345"},"modified":"2019-11-04T10:49:07","modified_gmt":"2019-11-04T12:49:07","slug":"a-teoria-do-fluxo-a-felicidade-no-dia-a-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/behappier.app\/blog\/?p=1345","title":{"rendered":"A teoria do fluxo: a felicidade no dia a dia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">A felicidade \u2013 ou pelo menos a busca pelo entendimento de sua natureza \u2013\u00a0 \u00e9 um tema que vem ocupando a mente de in\u00fameros pensadores ao longo da hist\u00f3ria humana no campo da Filosofia e tem encontrado nas \u00faltimas d\u00e9cadas um espa\u00e7o singular nas pesquisas acad\u00eamicas de maior afinidade com as Ci\u00eancias Sociais. Nos Estados Unidos da Am\u00e9rica e na Gr\u00e3 Bretanha, mais acentuadamente que em outros centros, os temas em torno da felicidade t\u00eam proliferado no meio acad\u00eamico de maneira progressiva, e isso pode ser quantificado pelo volume de livros e artigos sobre o tema publicados a partir do final da d\u00e9cada de 90. Esse recente crescimento na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre a felicidade, ainda pode ser constatado pela cria\u00e7\u00e3o de um peri\u00f3dico totalmente dedicado ao tema: o Journal of Happiness Studies.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muito do interesse inicial pela felicidade surgido na d\u00e9cada de 90 est\u00e1 relacionado a \u00e1rea econ\u00f4mica ou, melhor dizendo, \u00e0s discrep\u00e2ncias percebidas entre aumento de renda \u2013 melhora da qualidade de vida em termos de consumo e acesso a benef\u00edcios mensur\u00e1veis objetivamente \u2013 e a crescente incid\u00eancia de doen\u00e7as de express\u00e3o afetiva como a depress\u00e3o e \u00e0quelas ligadas ao stress e a ansiedade. Fatores como viol\u00eancia, instabilidade financeira, autoritarismo e democracia tamb\u00e9m aparecem como elementos desafiadores quando pretende-se entender os benef\u00edcios operados pelo crescimento econ\u00f4mico e suas poss\u00edveis correla\u00e7\u00f5es com a melhora global da qualidade de vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por um lado, poder\u00edamos tomar tal indicativo como um poss\u00edvel argumento em favor da ideia de que o crescente interesse pela felicidade poderia ser um sintoma de que, para a sociedade atual, a felicidade apresenta-se mais como um problema do que como uma experi\u00eancia frequente. Por outro lado, o tipo de interesse pela felicidade que tem se destacado nas pesquisas psicol\u00f3gicas mais recentes refere-se \u00e0 experi\u00eancia humana com o cotidiano, seja nas suas rela\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias com o dinheiro, o trabalho ou a intera\u00e7\u00e3o afetiva. Aspectos subjetivos e objetivos t\u00eam servido como objeto de estudo para a investiga\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da felicidade, pois servem como sinalizadores da din\u00e2mica cotidiana que constitui a vida daqueles que s\u00e3o vistos como pessoas saud\u00e1veis e \u201cnormais\u201d dentro dos par\u00e2metros usuais da investiga\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Nesse sentido, a busca por informa\u00e7\u00f5es que ajudem a compreender e a identificar ind\u00edcios de uma vida plena no \u00e2mbito da vida di\u00e1ria tem contribu\u00eddo para o incremento de pesquisas em Psicologia sobre a viv\u00eancia de felicidade em suas mais diversas express\u00f5es, particularmente entre os defensores da Psicologia Positiva, que \u00e9 o que podemos ver no trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Csikszentmihalyi em sua obra A Descoberta do Fluxo, de 1999, descreve a experi\u00eancia de viver de maneira plena a partir do \u201cn\u00e3o desperd\u00edcio de tempo e potencial, expressando a pr\u00f3pria individualidade, mas participando intimamente da complexidade do cosmo\u201d. Apoiando-se em descobertas da Psicologia Contempor\u00e2nea e em suas pr\u00f3prias pesquisas, Mihaly aponta maneiras de se envolver plenamente com a vida, que ele define como sendo aquilo que experimentamos da manh\u00e3 at\u00e9 a noite, sete dias por semana, durante o tempo em que vivemos. \u00c9 esse envolvimento com a vida cotidiana que na opini\u00e3o do autor poderia favorecer uma \u201cboa vida\u201d, e seria tamb\u00e9m uma das chaves para a felicidade. Contudo, esse envolvimento com o cotidiano depende de ter-se uma boa no\u00e7\u00e3o das for\u00e7as que formam aquilo que se pode experimentar, que s\u00e3o manifestadas atrav\u00e9s dos limites do que se pode fazer e sentir, a medida que atingi-se a compreens\u00e3o da realidade cotidiana que n\u00e3o pode ser ignorada caso deseje-se atingir a excel\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mihalyi ainda prop\u00f5e uma interessante contraposi\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s possibilidades de se experienciar a vida cotidiana. Por um lado ele reconhece as similaridades entre a maneira como se pode experienciar a vida, independentemente da \u00e9poca e cultura, em decorr\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o do sistema nervoso humano que permite apenas o processamento de uma pequena quantidade de informa\u00e7\u00e3o a cada vez. Segundo esse autor esse arranjo biol\u00f3gico\/fisiol\u00f3gico que imp\u00f5e limita\u00e7\u00f5es na aten\u00e7\u00e3o, determina a quantidade de energia ps\u00edquica que possu\u00edmos para experimentar o mundo e por essa raz\u00e3o oferecem \u201cum roteiro inflex\u00edvel para nossas vidas\u201d. Por outro lado, ele n\u00e3o desconhece as diferen\u00e7as quanto \u00e0s oportunidades de experienciar a vida decorrentes da inser\u00e7\u00e3o social do sujeito. Diz o autor, \u201cassim, embora os principais par\u00e2metros da vida estejam fixados, e ningu\u00e9m possa evitar o repouso, a alimenta\u00e7\u00e3o, a intera\u00e7\u00e3o, e pelo menos algum trabalho, a humanidade est\u00e1 dividida em categorias sociais que determinam em grande parte o conte\u00fado espec\u00edfico da experi\u00eancia\u201d. (Csikszentmihalyi, 1999, p. 11).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda, de acordo com a teoria do Fluxo, aquilo que aparentemente poderia propiciar a viv\u00eancia de uma vida feliz parece estar dispon\u00edvel, na maior parte das vezes, para a maioria das pessoas. Sendo assim, \u00e9 l\u00edcito perguntar-se por que nem todas as pessoas se sentem felizes com suas vidas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Excluindo-se as condi\u00e7\u00f5es de priva\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria, h\u00e1 ind\u00edcios de que a felicidade \u00e9 algo que se pode atingir com recursos inteiramente pessoais, ou seja, a felicidade seria uma conquista que dependeria muito mais do sujeito e estaria relacionada \u00e0 quest\u00e3o da individualidade. Csikszentmihalyi descreve a vida como sendo em parte determinada pelos processos qu\u00edmicos do corpo, pela intera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica entre os \u00f3rg\u00e3os, pelas \u00edntimas correntes el\u00e9tricas que circulam entre as sinapses cerebrais, e pela organiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que a cultura imp\u00f5e sobre nossa mente. Mas, o autor tamb\u00e9m reconhece e ressalta a import\u00e2ncia da experi\u00eancia individual como capaz de dar significado \u00e0 vida. Escreve ele: \u201c\u2026a qualidade real da vida \u2013 o que fazemos, e como nos sentimos quanto a isso \u2013 ser\u00e1 determinado pelos nossos pensamentos e pelas nossas emo\u00e7\u00f5es; pelas interpreta\u00e7\u00f5es que damos aos processos qu\u00edmicos, biol\u00f3gicos e sociais\u201d (p. 23).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao tentar encontrar os fundamentos da experi\u00eancia da felicidade na vida de algu\u00e9m, a Psicologia n\u00e3o deve se furtar de levar em considera\u00e7\u00e3o a caracter\u00edstica de flexibilidade presente nos indiv\u00edduos, e que \u00e9 expressa atrav\u00e9s da consci\u00eancia individual que pode romper com as determina\u00e7\u00f5es da condi\u00e7\u00e3o humana comum ditadas pelas categorias sociais e culturais e pelo acaso. Do contr\u00e1rio, qualquer tentativa de reflex\u00e3o sobre as poss\u00edveis maneiras de tornar a vida dos indiv\u00edduos excelente seriam in\u00fateis. Csikszentmihalyi conclui que, \u201cfelizmente, existem oportunidades suficientes para a iniciativa pessoal e escolha para fazer uma diferen\u00e7a real. E aqueles que acreditam nisso s\u00e3o os que t\u00eam mais chance de se libertar dos grilh\u00f5es do destino\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Csikszentmihalyi trabalha com o conceito de Personalidade Autot\u00e9lica, e promove uma necess\u00e1ria distin\u00e7\u00e3o entre sucesso e realiza\u00e7\u00e3o. Esta vem de dentro, e se orienta para um fim que o pr\u00f3prio indiv\u00edduo se coloca. Da\u00ed a palavra autot\u00e9lico, significando um fim (telos) que o pr\u00f3prio indiv\u00edduo se imp\u00f5e. O sucesso, ao contr\u00e1rio, se orienta para fora, para aquilo que julgamos ir\u00e1 impressionar os outros. Essas reflex\u00f5es d\u00e3o \u00e0 teoria de Csikszentmihalyi uma dimens\u00e3o existencial e filos\u00f3fica incomum. O ponto focal de sua teoria sobre a felicidade humana encontra-se na ideia do fluxo \u2013 flow \u2013 que poderia ser definido como um estado subjetivo em que o sujeito experimenta uma entrega total \u00e0 atividade desempenhada, no sentido de que a pessoa percebe que tanto os desafios numa dada situa\u00e7\u00e3o quanto suas capacidades s\u00e3o elevados, ou seja, no estado de fluxo h\u00e1 um envolvimento t\u00e3o intenso com a atividade, que a realiza\u00e7\u00e3o da atividade em si promove grande satisfa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pessoas com personalidades autot\u00e9licas seriam caracterizadas por usufru\u00edrem com maior frequ\u00eancia dos estados de fluxo nas mais diversas atividades da vida cotidiana. As pessoas autot\u00e9licas precisam de poucos bens materiais, pouco entretenimento, pouco conforto, poder ou fama, sendo mais aut\u00f4nomas e independentes porque n\u00e3o se sentem amea\u00e7adas ou seduzidas por recompensas externas. Ao mesmo tempo se envolvem mais com tudo ao seu redor, porque est\u00e3o totalmente imersas na corrente da vida. Curiosamente, resultados de estudos indicam que pessoas autot\u00e9licas apesar de demonstrarem usufruir mais e melhor das situa\u00e7\u00f5es cotidianas, n\u00e3o reportam maior felicidade ou satisfa\u00e7\u00e3o que as outras pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Csikszentmihalyi levanta uma interessante quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a paridade existente na avalia\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria felicidade entre pessoas autot\u00e9licas e n\u00e3o autot\u00e9licas. O que esse autor prop\u00f5e \u00e9 que a felicidade declarada n\u00e3o \u00e9 boa indicadora da qualidade de vida da pessoa, ele postula que algumas pessoas dizem que est\u00e3o \u201cfelizes\u201d mesmo quando n\u00e3o gostam de seus empregos, quando a vida dom\u00e9stica \u00e9 inexistente, quando passam o tempo todo em atividades sem significado. Isso seria ocasionado por uma tend\u00eancia humana para evitar a tristeza que possibilitaria a insist\u00eancia em prosseguir com uma vida nem sempre satisfat\u00f3ria. Sendo assim, as pessoas autot\u00e9licas podem n\u00e3o ser necessariamente felizes mas envolvem-se em tarefas mais complexas \u2013 ou sentem-se mais envolvidas com as atividades do dia a dia \u2013 o que contribui para que se sintam melhores consigo mesmas. Segundo Csikszentmihalyi, ter uma vida excelente pode n\u00e3o ser o bastante para ser feliz. O que importa \u00e9 ser feliz enquanto estamos fazendo coisas que ampliam nossas habilidades, que nos ajudam a crescer e a realizar nosso potencial.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por Angelita Scardua, psic\u00f3loga e especialista em estudos sobre Felicidade.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A felicidade \u2013 ou pelo menos a busca pelo entendimento de sua natureza \u2013\u00a0 \u00e9 um tema que vem ocupando a mente de in\u00fameros pensadores ao longo da hist\u00f3ria humana no campo da Filosofia e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1346,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,11],"tags":[],"class_list":["post-1345","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-habitos","category-proposito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1345"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1345\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1352,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1345\/revisions\/1352"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/behappier.app\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}