{"id":1356,"date":"2019-11-05T00:09:38","date_gmt":"2019-11-05T02:09:38","guid":{"rendered":"http:\/\/behappier.app\/?p=1356"},"modified":"2019-11-05T00:09:38","modified_gmt":"2019-11-05T02:09:38","slug":"a-importancia-da-tristeza-para-a-vivencia-de-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/behappier.app\/blog\/?p=1356","title":{"rendered":"A Import\u00e2ncia da tristeza para a viv\u00eancia de felicidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">A tristeza, e as condi\u00e7\u00f5es de vida associadas a ela, sempre foi um foco de interesse para pesquisadores das humanidades, especialmente para psic\u00f3logos. Os efeitos negativos das condi\u00e7\u00f5es de vida marcadas por fatores como adoecimento f\u00edsico e mental, pobreza, desemprego e div\u00f3rcio dominaram a pesquisa psicol\u00f3gica durante d\u00e9cadas. Somente nos anos 1980, com o surgimento da Psicologia Positiva, \u00e9 que a \u00eanfase na dor e no sofrimento nos estudos psicol\u00f3gicos passou a ser questionada. Por um lado, a cr\u00edtica \u00e0 Psicologia feita por essa nova corrente fomentou progressos percept\u00edveis. O aumento no n\u00famero de estudos e no desenvolvimento de t\u00e9cnicas terap\u00eauticas voltadas para o entendimento e a promo\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es positivas \u00e9 consider\u00e1vel, e continua a se expandir. Por outro, nutriu-se a falsa ideia, especialmente entre leigos e detratores da Psicologia Positiva, de que essa nova abordagem psicol\u00f3gica advogava ser o objetivo da vida humana ideal a busca incessante da felicidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Originalmente, ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, a Psicologia Positiva n\u00e3o se constituiu como uma apologia da simples busca da felicidade. Sua proposta te\u00f3rica e metodol\u00f3gica n\u00e3o tratava da elimina\u00e7\u00e3o da tristeza ou de qualquer outro sentimento negativo, muito menos de definir tais sentimentos como malignos. O que se propunha era a compreens\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es positivas e dos efeitos destas no desenvolvimento e na experi\u00eancia humana. Com isso a Psicologia Positiva pretendeu gerar uma teoria e um conjunto de t\u00e9cnicas que viabilizassem estrat\u00e9gias para a promo\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias e dos sentimentos \u00f3timos. Acreditava-se que, assim, seria poss\u00edvel impedir que as viv\u00eancias e os sentimentos negativos se transformassem em condi\u00e7\u00f5es cognitivas e emocionais impeditivas do pleno desenvolvimento humano, que \u00e9 o que ocorre nos quadros de depress\u00e3o profunda, por exemplo. Progressivamente, a Psicologia Positiva vem sendo bem sucedida no seu prop\u00f3sito inicial, uma vez que o avan\u00e7o da abordagem tem suscitado o desenvolvimento de mecanismos para o reconhecimento da import\u00e2ncia da resili\u00eancia e para a sua promo\u00e7\u00e3o, assim como de todas as emo\u00e7\u00f5es positivas que a viabilizam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os avan\u00e7os promovidos pela Psicologia Positiva no reconhecimento da import\u00e2ncia das emo\u00e7\u00f5es positivas e na validade de promov\u00ea-las, contudo, suscitou certa euforia mercadol\u00f3gica em torno do tema felicidade. Profissionais de todo tipo e oportunistas em geral \u2013 \u00e1vidos por novidades cient\u00edficas que possam ser anunciadas como panaceia para todos os males \u2013 apropriaram-se do discurso da Psicologia Positiva. A \u00eanfase nas emo\u00e7\u00f5es positivas como alegria, satisfa\u00e7\u00e3o e prazer, passou a ser vendida como f\u00f3rmula de vida para a obten\u00e7\u00e3o da felicidade. Mais do que isso, a felicidade passou a ser tratada como objetivo \u00faltimo da exist\u00eancia humana, cujo alcance dependeria da supress\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es negativas. Num primeiro momento isso foi ruim, pois criou uma associa\u00e7\u00e3o entre a psicologia Positiva e a autoajuda. Posteriormente foi at\u00e9 bom, pois levou os psic\u00f3logos defensores dessa nova abordagem a pesquisarem o papel das emo\u00e7\u00f5es negativas na viv\u00eancia da felicidade, delimitando assim as fronteiras entre a vontade sincera de compreender o significado das experi\u00eancias vividas, boas ou n\u00e3o, para uma vida feliz e o entusiasmo superficial dos que buscam apenas a promessa vend\u00e1vel da satisfa\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Joe Forgas, um psic\u00f3logo e professor australiano, \u00e9 um desses pesquisadores positivos que contribui para o entendimento da import\u00e2ncia das emo\u00e7\u00f5es negativas em nossa vida. Os resultados obtidos por Forgas sugerem que a tristeza pode ser ben\u00e9fica aos n\u00edveis individual e interpessoal, pelo menos, de quatro maneiras:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">1 \u2013 A tristeza atrai mais aten\u00e7\u00e3o: ao combinar o efeito de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas (dias nublados e ensolarados) e musicais (can\u00e7\u00f5es melanc\u00f3licas e alegres) sobre o humor de participantes em tarefa que exigia aten\u00e7\u00e3o, Forgas demonstrou que nos dias sombrios as pessoas foram mais propensas a relatar um estado de humor mais triste, e que isso coincidiu com a capacidade de reter na mem\u00f3ria com maior precis\u00e3o as observa\u00e7\u00f5es feitas. Do ponto de vista pr\u00e1tico pode-se pensar que, talvez, a evolu\u00e7\u00e3o tenha nos habilitado a sermos mais atenciosos quando tristes para nos proteger de nos envolvermos em situa\u00e7\u00f5es de risco que comprometam nossas chances de sobreviv\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">2 \u2013 A tristeza contribui para argumenta\u00e7\u00f5es mais convincentes: ao confrontar estudantes de gradua\u00e7\u00e3o da \u00e1rea cient\u00edfica com argumentos persuasivos a favor ou contra certas pol\u00edticas, Forgas observou que os que se declararam mais tristes tenderam a produzir uma argumenta\u00e7\u00e3o mais convincente baseada em um racioc\u00ednio mais concreto e sistem\u00e1tico. \u00c9 poss\u00edvel que a tristeza, ao nos retirar parte do otimismo, nos leve a raciocinar de forma mais pragm\u00e1tica, fazendo com que nossos pensamentos pautem-se mais nos fatos do que na interpreta\u00e7\u00e3o que fazemos dos mesmos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">3 \u2013 A tristeza minimiza a confian\u00e7a em estere\u00f3tipos: ao registrar o comportamento de v\u00e1rias pessoas jogando um videogame violento, Forgas observou que os jogadores eram mais propensos a atirar nos alvos de uma etnia diferente da sua. O vi\u00e9s perceptivo, que tende a ver o diferente como inimigo, contudo, foi reduzido entre as pessoas cuja avalia\u00e7\u00e3o dos estados afetivos apontava para maiores \u00edndices de humores negativos. Como a tristeza tende a nos tornar mais atentos e cr\u00edticos, isso pode contribuir para que n\u00e3o nos deixemos contaminar pelos valores atribu\u00eddos a pessoas e coisas em fun\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos simples como cor da pele, tipo de roupa, peso, etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">4 \u2013 A tristeza facilita novas intera\u00e7\u00f5es sociais: ao sermos expostos a uma nova situa\u00e7\u00e3o social que exige a intera\u00e7\u00e3o com pessoas que ainda n\u00e3o conhecemos, num novo emprego ou numa nova sala de aula, \u00e9 comum nos sentirmos fora do grupo. Esse sentimento tende a acentuar emo\u00e7\u00f5es negativas como inseguran\u00e7a, associada ao medo de n\u00e3o sermos bem recebidos ou aceitos, o que, em geral, envolve um per\u00edodo caracterizado por humores mais tristes. O que os estudos de Forgas demonstram \u00e9 que a tristeza que surge nessas condi\u00e7\u00f5es nos faz prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas ao nosso redor, a ser mais convincente em nossos argumentos e mais alertas, nos levando a considerar mais cautelosamente as informa\u00e7\u00f5es que circulam dentro do grupo como opini\u00f5es, posicionamentos, valores, etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os achados de Forgas parecem nos exigir uma reflex\u00e3o sobre o valor da tristeza para a vida e, mais do que isso, de como ela pode ser parte essencial de uma exist\u00eancia plena e feliz. O fato \u00e9 que a tristeza \u00e9 parte crucial da nossa biologia, e como tal ela deve servir a algum prop\u00f3sito evolutivo uma vez que sua manuten\u00e7\u00e3o deve representar alguma vantagem para nossa esp\u00e9cie. At\u00e9 o momento tem sido dif\u00edcil para os estudiosos do comportamento humano definirem claramente o porqu\u00ea da tristeza ser importante, mas estudos como o de Forgas abrem espa\u00e7o para algumas possibilidades. Gosto de pensar em tr\u00eas delas: uma \u00e9 a de que a tristeza seria uma estrat\u00e9gia de autoprote\u00e7\u00e3o, outra \u00e9 de que ela nos ajuda a aprender com nossos erros e, finalmente, de que ela \u00e9 uma forma de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A tristeza exige que paremos \u2013 que desaceleremos o ritmo interno e a tend\u00eancia \u00e0 dispers\u00e3o provocada por est\u00edmulos externos \u2013 para focarmos em algo que \u00e9 realmente importante para n\u00f3s, seja o amor do outro ou a liquida\u00e7\u00e3o de uma d\u00edvida. Assim, quando sofremos pelo t\u00e9rmino de um relacionamento, por exemplo, podemos aprender a reconhecer os erros que n\u00f3s e o outro cometemos e a evit\u00e1-los numa rela\u00e7\u00e3o futura. Esse aprendizado, por sua vez, pode funcionar de forma auto protetiva, minimizando as chances de um novo desapontamento afetivo, ou pelo menos de novo rompimento por ignorar os erros que cometemos anteriormente. Dessa forma, quando estamos tristes somos for\u00e7ados a parar e a rever nossa maneira de atuar no mundo. Sem a tristeza \u00e9 prov\u00e1vel que nos deix\u00e1ssemos atropelar pelos eventos da vida, fossem eles bons ou ruins, sucumbindo ao estresse gerado pelos segundos. Talvez, por isso, possamos pensar na tristeza como uma estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o, por meio da qual sinalizamos para os outros e para n\u00f3s mesmos que n\u00e3o estamos bem, que precisamos de ajuda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando estamos tristes nos damos conta de que a vida que estamos vivendo pode n\u00e3o ser a que desejamos ou a melhor que poder\u00edamos viver. Essa \u00e9 a primeira condi\u00e7\u00e3o para tentarmos mudar. Se fosse poss\u00edvel uma exist\u00eancia sem tristeza, \u00e9 v\u00e1lido afirmar que haveria enorme chance de que seria uma vida estagnada, sem transforma\u00e7\u00e3o, logo, sem melhorias. Os achados da Psicologia Positiva sobre o papel da tristeza nos leva a acreditar que suprimir a tristeza, com rem\u00e9dios, por exemplo, seria quase como embotar nossa capacidade de automotiva\u00e7\u00e3o. Usar um antidepressivo quando o problema \u00e9 outro, tipo um relacionamento ruim ou um trabalho insatisfat\u00f3rio, pode n\u00e3o ser a solu\u00e7\u00e3o para uma vida mais feliz, mas o aprisionamento a uma exist\u00eancia na qual a pessoa abre m\u00e3o da possibilidade de realizar suas potencialidades. Se voc\u00ea, ent\u00e3o, est\u00e1 triste nesse momento, n\u00e3o pense que isso \u00e9 um impedimento para a sua felicidade. Ao inv\u00e9s de correr para a farm\u00e1cia, tente pensar no que est\u00e1 fazendo voc\u00ea infeliz, sua tristeza pode gui\u00e1-lo para uma vida bem mais satisfat\u00f3ria, levando-o a compreender o que precisa ser mudado em voc\u00ea e a sua volta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A grande li\u00e7\u00e3o da Psicologia Positiva sobre a felicidade, portanto, n\u00e3o \u00e9 a ideia de que uma vida feliz \u00e9 feita da aus\u00eancia de tristeza, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 que a tristeza assim como a alegria \u00e9 uma parte essencial da vida humana. Ambas nos ensinam como o que vivemos nos afeta. \u00c9 s\u00f3 aprendermos a prestar aten\u00e7\u00e3o a elas. Afinal, emo\u00e7\u00e3o \u00e9 informa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por Angelita Scardua, psic\u00f3loga e especialista em estudos sobre Felicidade.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tristeza, e as condi\u00e7\u00f5es de vida associadas a ela, sempre foi um foco de interesse para pesquisadores das humanidades, especialmente para psic\u00f3logos. 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