{"id":1357,"date":"2019-11-05T00:11:13","date_gmt":"2019-11-05T02:11:13","guid":{"rendered":"http:\/\/behappier.app\/?p=1357"},"modified":"2019-11-05T00:11:13","modified_gmt":"2019-11-05T02:11:13","slug":"a-gentileza-e-a-felicidade-compartilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/behappier.app\/blog\/?p=1357","title":{"rendered":"A gentileza e a felicidade compartilhada"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para al\u00e9m do sentido sem\u00e2ntico da palavra gentileza, que significa delicadeza, amabilidade e cortesia, ser gentil compreende a capacidade de ser emp\u00e1tico. A pessoa gentil, portanto, \u00e9 aquela que trata aos outros com respeito n\u00e3o apenas porque aprendeu que isso \u00e9 sinal de boa educa\u00e7\u00e3o, mas porque \u00e9 capaz de reconhecer no outro um igual. Quando somos emp\u00e1ticos tendemos a nos colocar no lugar da outra pessoa, a ver o outro como um ser humano como n\u00f3s: com sonhos, problemas, necessidades, d\u00favidas, medos, qualidades, defeitos. Assim, resistimos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de julgar o outro nos baseando em impress\u00f5es moment\u00e2neas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser gentil \u00e9 antes de tudo ser capaz de perceber as necessidades dos outros. Quando dizemos bom dia a algu\u00e9m estamos n\u00e3o apenas sendo corteses, mas tamb\u00e9m estamos atendendo a uma necessidade humana de ser visto e percebido por seus iguais. Quem tem a consci\u00eancia de que h\u00e1 necessidades humanas comuns a todos n\u00f3s, independentemente de classe social, etnia ou religi\u00e3o, consegue ser gentil. A rela\u00e7\u00e3o entre ser gentil e ser capaz de reconhecer o outro como igual pode ser sustentada pela teoria da \u201csobreviv\u00eancia do mais gentil\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo essa teoria a gentileza foi um fator preponderante para a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana, e um dos seus principais defensores \u00e9 o cientista comportamental Sam Bowles. Bowles \u00e9 professor do Instituto Santa F\u00e9, nos Estados Unidos, e passou boa parte da vida acad\u00eamica estudando as caracter\u00edsticas socioecon\u00f4micas de sociedades antigas. Em seus estudos ele verificou que a gentileza foi um componente fundamental para o bom funcionamento das comunidades e para sua manuten\u00e7\u00e3o no longo prazo. Para ele, as pessoas gentis contribuem para o bem-estar do grupo favorecendo a sobreviv\u00eancia de todos, incluindo a delas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se no passado a gentileza foi t\u00e3o importante para a sobreviv\u00eancia humana, em nossa \u00e9poca diz-se que tem se tornado um bem raro. Compartilho desta percep\u00e7\u00e3o. Penso que v\u00e1rias raz\u00f5es podem explicar o porqu\u00ea de estarmos abandonando as atitudes gentis. Em parte isso reflete um modo de vida que aparentemente leva \u00e0 perda da capacidade de prestar aten\u00e7\u00e3o em n\u00f3s mesmos e ao outro. Diferentemente da vida em uma pequena tribo ou em uma vila da antiguidade, o ritmo no qual vivemos atualmente nos d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o, seja do tempo, das experi\u00eancias ou das rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos. At\u00e9 bem pouco tempo, o comum era a pessoa nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer na mesma cidade, ou pelo menos no mesmo estado. Estudava-se todo o ensino fundamental e m\u00e9dio na mesma escola, que geralmente ficava no bairro em que se morava, no qual os professores eram os vizinhos. No bairro em que se morava tamb\u00e9m era onde se conhecia \u201co amor da vida\u201d frequentando a pra\u00e7a, a igreja ou o clube. As f\u00e9rias eram passadas na casa de algu\u00e9m da fam\u00edlia, no m\u00e1ximo na mesma praia de sempre. Os amigos da inf\u00e2ncia e os primos se tornavam os padrinhos de casamento e dos filhos tidos. Ainda, no passado bem recente, um profissional costumava se aposentar na mesma empresa em que teve o primeiro emprego, e a profiss\u00e3o escolhida no vestibular garantia emprego e boa renda com apenas a gradua\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Podemos ver, assim, que o ritmo das nossas vidas mudou muito. Hoje, mesmo quem vive em pequenas cidades \u00e9 afetado pela organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o geogr\u00e1fico em grandes regi\u00f5es urbanas industrializadas e habitadas por pessoas de origens diversas. Recebemos not\u00edcias, nos comunicamos e temos contato com modelos de vida de habitantes do mundo todo. Passamos por v\u00e1rios espa\u00e7os educacionais entre a creche e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Trabalhamos em diferentes empresas e em diferentes fun\u00e7\u00f5es ao longo da vida. Moramos em diferentes bairros, cidades e at\u00e9 pa\u00edses. Quando n\u00e3o moramos, nos deslocamos em viagens, seja a passeio ou a trabalho. Resumindo, o universo das nossas rela\u00e7\u00f5es ampliou-se consideravelmente, tal qual o uso que fazemos do tempo, seja estudando, trabalhando, se deslocando, se comunicando. Essa pulveriza\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o vividos nos leva a estabelecer rela\u00e7\u00f5es superficiais, ficamos sem muita condi\u00e7\u00e3o de aprofundar o contato com as outras pessoas, e at\u00e9 mesmo de nos observarmos mais atentamente. A correria di\u00e1ria nos leva a ouvir e a ver mal, os outros ou a n\u00f3s mesmos. Temos vizinhos dos quais n\u00e3o sabemos sequer o nome, colegas de estudo e de trabalho que n\u00e3o fazemos ideia de onde moram, nos envolvemos afetivamente com v\u00e1rias pessoas e raramente visitamos os parentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao mesmo tempo em que nos aproximamos fisicamente das pessoas, morando e trabalhando em espa\u00e7os cada vez menores e mais lotados, nos distanciamos emocionalmente. N\u00e3o nos conhecemos mais. Uma das formas de aprendermos a respeitar outra pessoa \u00e9 conhec\u00ea-la, \u00e9 saber quem ela \u00e9, o que viveu, o que pensa, o que sofreu, o que conquistou. A hist\u00f3ria de uma pessoa a humaniza, a aproxima de todos n\u00f3s porque na hist\u00f3ria de vida do outro acabamos por reconhecer aspectos da nossa. Isso nos permite olhar o outro como igual, e esse reconhecimento nos leva a ser mais respeitosos, a ter mais considera\u00e7\u00e3o, a ser mais gentis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A gentileza torna a vida em geral mais apraz\u00edvel, proporciona a cria\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos com maior qualidade e melhora os contatos superficiais tornando-os menos estressantes e mais significativos, ou seja, com maior valor pessoal. Al\u00e9m disso, a gentileza \u00e9 um instrumento relacional que ajuda a abrir portas, a facilitar processos de negocia\u00e7\u00e3o de forma mais igualit\u00e1ria sem que prevale\u00e7am os interesses de um lado em fun\u00e7\u00e3o da autoridade ou da for\u00e7a puramente. Ao sermos gentis, conseguimos adicionar valor \u00e0s a\u00e7\u00f5es cotidianas, dotando-as de um car\u00e1ter mais espont\u00e2neo e menos mec\u00e2nico. Quando agimos com gentileza percebemos com maior clareza que nossas a\u00e7\u00f5es exercem efeitos sobre as outras pessoas. Como esses efeitos s\u00e3o positivos tendemos a nos sentir melhor. Essa melhora exerce influ\u00eancia tanto ao n\u00edvel subjetivo (emocional e cognitivo) quanto ao objetivo (fisiol\u00f3gico). Pelo menos \u00e9 o que relata o m\u00e9dico e pesquisador Stephen Post. Post, que \u00e9 professor da Stony Brook University, tamb\u00e9m nos EUA, realizou um estudo envolvendo mais de duas mil pessoas, no qual encontrou ind\u00edcios de que ser gentil faz bem \u00e0 sa\u00fade. O que faz sentido, uma vez que as sensa\u00e7\u00f5es positivas que temos quando somos gentis geram rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas em nosso c\u00e9rebro que liberam neurotransmissores associados ao prazer, ao relaxamento e \u00e0 alegria, como \u00e9 o caso dos horm\u00f4nios serotonina e ocitocina. Esse efeito f\u00edsico e emocional da gentileza seria v\u00e1lido tanto para quem \u00e9 gentil quanto para quem \u00e9 beneficiado pela gentileza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dito de outra forma, h\u00e1 ind\u00edcios de que a gentileza pode contribuir para uma vida mais feliz. A psic\u00f3loga Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Calif\u00f3rnia, tem se dedicado a investigar a felicidade. Em um de seus estudos, Sonja pediu aos participantes que praticassem a\u00e7\u00f5es gentis durante dez semanas. O que ela averiguou foi que a percep\u00e7\u00e3o de felicidade dos participantes aumentou durante o per\u00edodo no qual estavam envolvidos no estudo. O mais interessante em rela\u00e7\u00e3o aos resultados encontrados por Lyubomirsky foi quanto \u00e0 natureza das a\u00e7\u00f5es gentis. A pesquisadora encontrou uma correla\u00e7\u00e3o entre variedade das atitudes gentis e n\u00edveis de felicidade. Os participantes que foram gentis de diferentes formas \u2013 por exemplo: dizendo bom dia a estranhos, dando lugar a algu\u00e9m no metr\u00f4, dando prefer\u00eancia aos pedestres no tr\u00e2nsito \u2013 registraram n\u00edveis bem mais altos de felicidade do que quem sempre repetia um \u00fanico gesto de gentileza. Ainda, mais relevante, passado um m\u00eas depois do fim do estudo, os mais felizes continuavam pontuando alto nos testes para medi\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de felicidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim como os efeitos positivos da gentileza parecem ser potencializados quando somos gentis de diferentes formas, a pr\u00e1tica da gentileza n\u00e3o diz respeito a apenas um conjunto de regras de conduta e de etiqueta. Aparentemente, a gentileza expressa uma forma de se relacionar com as outras pessoas que \u00e9 pautada no respeito e na considera\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que ela \u00e9 tamb\u00e9m um sin\u00f4nimo de postura \u00e9tica. Melhor dizendo, a gentileza ou a falta dela pode ser a express\u00e3o mais vis\u00edvel do car\u00e1ter de uma pessoa e de seus valores. Nesse sentido, o exerc\u00edcio ou n\u00e3o da gentileza pode sinalizar o quanto uma pessoa est\u00e1 comprometida com a produ\u00e7\u00e3o de viv\u00eancias cotidianas melhores. Uma vez que a melhoria do que vivemos no dia a dia passa necessariamente pela qualidade das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre as pessoas. Sendo assim, a gentileza, como est\u00e1 sendo abordada aqui, pode contribuir para que as rela\u00e7\u00f5es humanas de forma geral sejam mais justas, mais \u00e9ticas e mais prazerosas. Seja num ambiente de trabalho, social ou \u00edntimo, o exerc\u00edcio da gentileza pode nos ajudar a entender o posicionamentos do outro, sua forma de agir, pensar e sentir, ou pelo menos nos tornar mais tolerantes para lidar com as diferen\u00e7as e os conflitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser gentil, portanto, tem mais a ver com o desejo de contribuir para uma vida melhor para todos do que com querer agradar a todos. A gentileza seria, ent\u00e3o, tanto fruto da nossa capacidade de observar e respeitar o outro quanto a n\u00f3s mesmos. N\u00e3o d\u00e1 para ser gentil quando negligenciamos e anulamos a n\u00f3s mesmos em fun\u00e7\u00e3o das necessidades de outra pessoa. Quando ignoramos nossas pr\u00f3prias necessidades nos tornamos ref\u00e9ns da m\u00e1goa e do ressentimento, e nesse estado dificilmente somos capazes de sermos gentis. Fazemos papel de bobo quando nos sujeitamos ao lugar de perfeitos, certinhos, bonzinhos. Nesses pap\u00e9is, tendemos a nos esfor\u00e7ar para satisfazer os interesses alheios. Isso n\u00e3o tem nada a ver com ser gentil. Quando desenvolvemos considera\u00e7\u00e3o e respeito por n\u00f3s e pelos outros aprendemos a reconhecer os sinais de explora\u00e7\u00e3o e de abuso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enfim, ser gentil n\u00e3o \u00e9 ser bonzinho, mas atuar no sentido de tornar a vida melhor, ou pelo menos mais palat\u00e1vel. O bonzinho que assume as responsabilidades de outro, e nunca diz n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 gentil. Quando assumimos as responsabilidades de outra pessoa estamos permitindo que alguns paguem pelos erros de outros, ou que alguns lucrem com o trabalho e a dedica\u00e7\u00e3o alheia, e isso de forma alguma pode ser confundido com gentileza. Ao agirmos assim n\u00e3o estamos sendo \u00e9ticos e, ao mesmo tempo, refor\u00e7amos valores como pregui\u00e7a, ego\u00edsmo, acomoda\u00e7\u00e3o e outros que n\u00e3o contribuem para um mundo melhor. Similarmente, quando nunca dizemos \u201cn\u00e3o\u201d estamos refor\u00e7ando em algu\u00e9m a ideia de que tudo \u00e9 permitido, de que n\u00e3o h\u00e1 limites, de que a vontade dela \u00e9 soberana o suficiente para passar por cima de tudo e de todos e isso, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 ser gentil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em resumo, a gentileza verdadeira pode ser reconhecida quando o resultado do seu exerc\u00edcio gera uma condi\u00e7\u00e3o que \u00e9 percebida como boa para os dois lados, para quem faz a gentileza e para quem a recebe. Quase sempre, quando se \u00e9 gentil tem-se como retorno apenas um sorriso, um obrigado ou a simples sensa\u00e7\u00e3o de ter feito o que \u00e9 correto. Para muitos esse retorno aparentemente pequeno pode n\u00e3o parecer o suficiente para fazer do mundo um lugar melhor para todos. Mas pergunte a algu\u00e9m que costuma exercer a gentileza. Ousaria assegurar-lhe que a resposta comprovaria uma feliz percep\u00e7\u00e3o: a de que o que a princ\u00edpio parece t\u00e3o pouco \u00e9 capaz de transformar o dia de uma pessoa, e at\u00e9 mesmo a forma como ela encara a si mesma, os outros e a pr\u00f3pria vida. Experimente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por Angelita Scardua, psic\u00f3loga e especialista em estudos sobre Felicidade.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m do sentido sem\u00e2ntico da palavra gentileza, que significa delicadeza, amabilidade e cortesia, ser gentil compreende a capacidade de ser emp\u00e1tico. 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