{"id":1358,"date":"2019-11-05T00:12:30","date_gmt":"2019-11-05T02:12:30","guid":{"rendered":"http:\/\/behappier.app\/?p=1358"},"modified":"2019-11-05T00:12:30","modified_gmt":"2019-11-05T02:12:30","slug":"beleza-a-felicidade-que-nao-se-compra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/behappier.app\/blog\/?p=1358","title":{"rendered":"Beleza: a felicidade que n\u00e3o se compra"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Usa-se a imagem de pessoas bonitas para se vender todo tipo de coisas, de carros \u00e0 margarina. H\u00e1 muito a humanidade acredita que um belo corpo pode ajudar a atrair os olhares e o interesse de um poss\u00edvel comprador. Mas ser\u00e1 mesmo verdade? A vis\u00e3o de uma pessoa bonita contribui para a venda de um produto mesmo que ele n\u00e3o tenha qualquer rela\u00e7\u00e3o com beleza f\u00edsica?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pode ser que uma carinha bonita ajude a incrementar as vendas, mas em 2010 a psic\u00f3loga Debra Trampe, da Universidade de Gr\u00f6ningen, na Holanda, realizou um estudo cujos resultados questionam a velha m\u00e1xima de que beleza vende qualquer coisa. Os achados da equipe de Trampe mostram que a beleza parece ajudar na avalia\u00e7\u00e3o positiva de um produto quando este \u00e9 associado ao corpo ou \u00e0 est\u00e9tica, mas pode ter efeito contr\u00e1rio quando o que se quer vender n\u00e3o possui tal associa\u00e7\u00e3o. Segundo o estudo, uma modelo bonita como garota propaganda contribui para que o consumidor avalie de maneira positiva um xampu, mas pode lev\u00e1-lo a duvidar da qualidade de um computador. Mais, os dados de Trampe ainda mostram que quanto mais o consumidor pensa sobre o conte\u00fado da propaganda, menos impacto a beleza exercer\u00e1 sobre sua avalia\u00e7\u00e3o do produto anunciado. A quest\u00e3o \u00e9: quantos consumidores param para pensar no conte\u00fado de uma propaganda?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em outdoors, em revistas, no cinema ou na TV, em qualquer ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o de massa a presen\u00e7a de pessoas consideradas bonitas \u00e9 obrigat\u00f3ria. Assim, vemos a beleza em toda parte, mais especificamente a beleza feminina, dominando visivelmente os conte\u00fados veiculados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Isso pode sugerir que a apar\u00eancia \u00e9 o grande atrativo da m\u00eddia e que o conte\u00fado por tr\u00e1s da beleza \u2013 seja produto anunciado, not\u00edcia ou ideia veiculada \u2013 \u00e9 secund\u00e1rio. Essa \u00e9 uma leitura poss\u00edvel se nos reportamos \u00e0 forma como nosso c\u00e9rebro organiza as informa\u00e7\u00f5es recebidas do meio, uma vez que a vis\u00e3o da beleza aciona o sistema de recompensa do nosso c\u00e9rebro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi o psic\u00f3logo norte-americano James Olds que, nos anos 60, cunhou o termo Sistema Cerebral de Recompensa para definir uma intrincada rede de neur\u00f4nios que \u00e9 ativada quando experienciamos algo que nos d\u00e1 prazer. A fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica desse sistema est\u00e1 diretamente associada \u00e0 garantia de sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Quando sentimos prazer fazendo algo, seja comer ou sexo, nos sentimos motivados a repetir. Dessa forma, somos impelidos a querer mais de tudo o que nos faz bem e que, portanto, nos ajuda a sobreviver como nutrir-se e reproduzir. Mais recentemente, em 2004, os pesquisadores Hideaki Kawabata e Semir Zeki, da University College de Londres, publicaram os resultados de uma s\u00e9rie de estudos sobre a percep\u00e7\u00e3o humana da beleza. O que eles encontraram ajuda a entender como a beleza, e o prazer associado a ela, exerce influ\u00eancia sobre nossas decis\u00f5es de compra. A vis\u00e3o da beleza, seja de uma obra de arte ou de um corpo bonito, est\u00e1 envolvida na libera\u00e7\u00e3o de dopamina pelo sistema l\u00edmbico. A dopamina \u00e9 a principal subst\u00e2ncia qu\u00edmica na ativa\u00e7\u00e3o do circuito de recompensa do c\u00e9rebro, e o sistema l\u00edmbico \u00e9 uma estrutura cerebral fundamental para o processamento das emo\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que tudo isso quer dizer? Que a vis\u00e3o da beleza desencadeia em nosso c\u00e9rebro rea\u00e7\u00f5es de prazer e motiva\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o apenas nos satisfazem sensorialmente como tendem a nos levar a querer ter mais daquilo que suscitou tais sensa\u00e7\u00f5es. Logo, se a divulga\u00e7\u00e3o de um produto qualquer for bem sucedida em associar sua imagem \u00e0 de uma mulher bonita, por exemplo, tendemos a desejar n\u00e3o apenas repetir a vis\u00e3o daquela mulher, mas ter acesso ao produto tamb\u00e9m. A ind\u00fastria do cinema de Hollywood \u00e9 um exemplo, famosa por despertar o interesse das pessoas por seus produtos, geralmente protagonizados por um elenco de beldades. Como se n\u00e3o bastasse o efeito motivador da vis\u00e3o da beleza, h\u00e1 ainda mais um: n\u00f3s, humanos, tendemos a associar beleza com qualidade. Em uma perspectiva evolucionista, muito provavelmente isso ocorre porque, originalmente, no longo da evolu\u00e7\u00e3o de nossa esp\u00e9cie, as caracter\u00edsticas que nosso c\u00e9rebro aprendeu a associar \u00e0 beleza, como \u00e9 o caso da simetria, corresponderiam a bons genes. Nesse sentido, um corpo ou rosto belo, sim\u00e9trico, sinalizaria que o indiv\u00edduo tem uma boa constitui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, ou seja, seria um bom parceiro para a reprodu\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Consideremos, ent\u00e3o, a vis\u00e3o de uma pessoa bela associada a um produto. Qual seria nossa tend\u00eancia natural \u2013 leia-se nossa predisposi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u2013 frente a tal situa\u00e7\u00e3o? Possivelmente a de avaliar positivamente o produto, al\u00e9m de associ\u00e1-lo \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de prazer, o que est\u00e1 associado \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o, \u00e9 bom lembrar. E o que aconteceria se uma pessoa fosse exposta ao est\u00edmulo gerado por essa associa\u00e7\u00e3o (beleza e produto) muitas e muitas vezes num certo per\u00edodo de tempo? H\u00e1 uma grande possibilidade de que ela desenvolvesse um padr\u00e3o mental predisposto a consumir o produto que seu c\u00e9rebro associou \u00e0 beleza. E como vimos no estudo de Debra Trampe, essa predisposi\u00e7\u00e3o tenderia a ser bem maior se o produto tiver rela\u00e7\u00e3o com est\u00e9tica, como \u00e9 o caso de um xampu. Dito isso, \u00e9 v\u00e1lido refletir sobre o fato de que a maioria das campanhas publicit\u00e1rias em torno de produtos est\u00e9ticos \u00e9 voltada para as mulheres. Uma vez que a beleza \u00e9 biologicamente um recurso para a atra\u00e7\u00e3o de parceiros, e consequentemente para a perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, ser percebida como bela pode soar como ant\u00eddoto para a solid\u00e3o e como garantia de que os pr\u00f3prios genes ser\u00e3o passados adiante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Objetivamente falando: apesar de termos abandonado o mundo selvagem, quando somos confrontadas pela vontade de sermos desejadas, ainda somos suscet\u00edveis aos impulsos mais primitivos do nosso c\u00e9rebro. Sendo que esses est\u00e3o associados ao sistema l\u00edmbico, aquela por\u00e7\u00e3o fundamental para o circuito de recompensa, lembra? Diante da possibilidade de sermos percebidas como belas e atraentes, somos tomadas pela for\u00e7a de emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias, pela busca incessante do efeito hipn\u00f3tico da dopamina, que gera prazer no outro e o motiva a querer um naco a mais do que somos. A dopamina, essa subst\u00e2ncia poderosa que ativa o desejo de querer mais de alguma coisa, pode ser liberada por in\u00fameros fatores. Um sorriso franco, comida boa, cheiros agrad\u00e1veis, conversa interessante, olhares, dan\u00e7a, sexo, interesses comuns. Muita coisa pode levar a uma explos\u00e3o dopamin\u00e9rgica no c\u00e9rebro do outro e no nosso tamb\u00e9m, a beleza f\u00edsica \u00e9 apenas uma parcela, e \u00e0 qual nos adaptamos rapidamente. Por maior que seja a beleza percebida numa pessoa, com a conviv\u00eancia nosso c\u00e9rebro se adapta ao est\u00edmulo sensorial. Os tra\u00e7os, as cores, as texturas, as propor\u00e7\u00f5es que nos atra\u00edram tornam-se familiares, comuns. Acostumamo-nos \u00e0 beleza de uma pessoa da mesma forma que a qualquer outro est\u00edmulo com o qual lidamos todos os dias. O que antes suscitou a libera\u00e7\u00e3o explosiva de dopamina, com o tempo deixa de ser, por si s\u00f3, estimulante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O est\u00edmulo advindo da beleza \u00e9 poderoso, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente para suprir as necessidades relacionais de uma pessoa ou criar v\u00ednculos afetivos est\u00e1veis e felizes. Um produto de beleza, por melhor que seja, pode suavizar as marcas do tempo no rosto de uma mulher, mas \u00e9 o que ela fez com esse tempo j\u00e1 vivido que pode torn\u00e1-la uma pessoa inesquec\u00edvel ou n\u00e3o. A mulher que n\u00e3o percebe isso pode realmente acreditar que n\u00e3o \u00e9 adequada como pessoa por n\u00e3o encaixar-se num determinado padr\u00e3o de beleza. Nove entre dez campanhas de publicidade em torno de produtos para as mulheres usa como mote a ideia de que n\u00e3o somos suficientemente belas, pelo menos n\u00e3o at\u00e9 usarmos o produto que est\u00e1 sendo anunciado, pois \u00e9 ele que nos tornar\u00e1 perfeitas. Isso sugere que quanto mais uma mulher for dependente emocionalmente da avalia\u00e7\u00e3o externa sobre suas qualidades pessoais, ou seja, quanto mais insegura ela se sentir quanto \u00e0 sua capacidade de ser interessante aos olhos do outro, mais ela ser\u00e1 suscet\u00edvel ao apelo dos produtos que prometem transform\u00e1-la na mulher ideal ou irreal. Mais motivada, portanto, ela se sentir\u00e1 a consumi-los, independentemente do bem-estar real que eles possam lhe propiciar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que nos faz consumir um produto, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a propaganda em si e suas estrat\u00e9gias de convencimento, mas a nossa incapacidade de pensar sobre o conte\u00fado veiculado por ela. Conte\u00fado este que quase sempre fala sobre nossas inseguran\u00e7as quanto ao valor que nos atribu\u00edmos.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por Angelita Scardua, psic\u00f3loga e especialista em estudos sobre Felicidade.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Usa-se a imagem de pessoas bonitas para se vender todo tipo de coisas, de carros \u00e0 margarina. 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