{"id":1537,"date":"2020-08-11T18:34:52","date_gmt":"2020-08-11T21:34:52","guid":{"rendered":"http:\/\/behappier.app\/?p=1537"},"modified":"2020-08-11T18:36:04","modified_gmt":"2020-08-11T21:36:04","slug":"a-beleza-da-sobrevivencia-o-dia-seguinte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/behappier.app\/blog\/?p=1537","title":{"rendered":"A beleza da sobreviv\u00eancia: o dia seguinte"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA vida \u00e9 assim: esquenta e esfria, aperta e da\u00ed afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente \u00e9 coragem.&#8221;<\/p>\n<p>(Guimar\u00e3es Rosa em Grande Sert\u00e3o Veredas)<\/p>\n<p>Muito se fala sobre a \u201cresili\u00eancia\u201d. Alguns acreditam que este \u00e9 um simples artif\u00edcio dos animadores de palco para motivar suas plateias. Talvez os \u201cusos\u201d da palavra possam ser questionados, mas a import\u00e2ncia do termo \u00e9 ineg\u00e1vel. Pesquisadores das vulnerabilidades humanas e do trauma constru\u00edram este conceito ao longo de d\u00e9cadas e o desenvolveram com a inten\u00e7\u00e3o de abarcar uma descoberta curiosa: nos lugares em que, por vezes, se procuravam traumas e comportamentos disfuncionais, os pesquisadores encontravam for\u00e7a e criatividade\u00b9.<\/p>\n<p>Ou seja, do mesmo modo que contextos de vulnerabilidade de todos os tipos (ex. viol\u00eancia, neglig\u00eancia, doen\u00e7as cr\u00f4nicas) pareciam influenciar negativamente o comportamento e as atitudes das pessoas, como uma ponte para caminhos sinuosos ou mort\u00edferos ao longo da vida, tamb\u00e9m n\u00e3o era incomum que isso simplesmente n\u00e3o acontecesse\u00b2. Neste sentido, \u00e9 poss\u00edvel observar que pessoas que vivenciaram situa\u00e7\u00f5es potencialmente dolorosas e traum\u00e1ticas avan\u00e7am nos desafios di\u00e1rios, desenvolvem e at\u00e9 ampliam suas habilidades ap\u00f3s as adversidades, e algumas carregam consigo uma certa \u201calegria de sobrevivente\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que este fato n\u00e3o isenta de sofrimento aqueles que apresentam hist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. As pessoas que superam as dificuldades concretas da exist\u00eancia tamb\u00e9m sofrem, ficam \u201cquebradas\u201d ou deprimidas, passam por momentos de apatia, arrependimento e d\u00favidas paralisantes. [Tenho certeza de que voc\u00ea consegue pensar em tr\u00eas pessoas conhecidas que j\u00e1 conseguiram se superar em momentos realmente desafiadores]<\/p>\n<p>Apesar de ser um fen\u00f4meno social e psicol\u00f3gico comum, e n\u00e3o uma \u201craridade\u201d, a forma e os contornos que a resili\u00eancia assume na biografia de cada pessoa s\u00e3o \u00fanicos. \u00c9 algo que n\u00e3o se repete. O tempo que se leva neste processo tamb\u00e9m \u00e9 pessoal, apesar de ser influenciado pelo ambiente (ex. apoio familiar, suporte emocional, suporte material). N\u00e3o existe uma hora certa, mas \u201co momento\u201d de cada pessoa.<\/p>\n<p>A beleza da sobreviv\u00eancia est\u00e1 na manh\u00e3 seguinte, e no dia seguinte, e depois. Temos aqui dois lados de uma mesma moeda: de um lado o aprendizado sobre os seus pr\u00f3prios limites e vulnerabilidades\u00b3, e do outro, o aprendizado sobre a sua for\u00e7a para prosseguir (e a maneira \u00fanica como ela se manifesta). A psicologia positiva chama isso de crescimento p\u00f3s-traum\u00e1tico\u00b2: todo o arcabou\u00e7o proveniente daquilo que aprendemos e os \u201cpresentes\u201d que ganhamos por enfrentar os nossos maiores medos.<\/p>\n<p>A resili\u00eancia \u00e9, portanto, muito diferente de ser algu\u00e9m \u201cinquebr\u00e1vel\u201d diante da incerteza, e muito mais do que \u201csaber recolher os pr\u00f3prios cacos e colar de volta\u201d quando algo muito devastador acontece. Refere-se aos pequenos aprendizados que temos quando tentamos colar estes cacos, que permitem construir uma pe\u00e7a \u00fanica em seu estilo, ao mesmo tempo que ajudam a olhar com mais profundidade e perspectiva para os desafios do futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Marcella Bastos Cacciari<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<br \/>\n\u00b9 Yunes, M. A. M. (2003). Psicologia positiva e resili\u00eancia: o foco no indiv\u00edduo e na fam\u00edlia. Psicologia em estudo, 8(SPE), 75-84.<br \/>\n\u00b2 Seligman, M. E. (2011). Florescer. Rio de Janeiro: Objetiva.<br \/>\n\u00b3 Brown, B. (2010). Bren\u00e9 Brown: The power of vulnerability. TED TALK.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA vida \u00e9 assim: esquenta e esfria, aperta e da\u00ed afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente \u00e9 coragem.&#8221; (Guimar\u00e3es Rosa em Grande Sert\u00e3o Veredas) Muito se fala sobre a \u201cresili\u00eancia\u201d. 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