E se fosse possível compreender cientificamente de onde vem a felicidade? O recente campo da Psicologia, inaugurado pelo psicólogo americano Martin Seligman, se debruça sobre a ciência para explicar o que nos deixa mais feliz e o que podemos fazer para aumentar nossos níveis de bem-estar e satisfação com a vida. Chamada de Psicologia Positiva, o movimento tem em nomes como Sonja Lyubomirsky, Ph.D. pela Universidade de Stanford e professora de Psicologia da Universidade da Califórnia, uma explicação que serve como ponto de partida para compreendermos a felicidade.
Segundo Sonja, 40% é a fatia de nossa felicidade que temos o poder de mudar por meio de novos hábitos e atitudes. Uma parcela de 50% vem da herança genética. E os 10% restantes são explicados pelas diferenças nas circunstâncias de vida (riqueza ou pobreza, saúde ou doença).
Por incrível que pareça, condicionamos nossa expectativa de ser feliz nesses 10% e fazemos de tudo para tentar controlar a vida a nossa maneira. Esquecemos do quanto ela é impermanente. E é aqui que começo a minha história.

Eu era aquela pessoa que se enquadrava no estereótipo do que é parecer ser feliz: bem sucedida, bonita, magra, viajada, cercada de amigos, um belo casamento. Fazia o checklist completo do que nos dizem o que é sucesso. Mas eu sentia um vazio constante no peito.
Meus momentos de alegria estavam relacionados a conquistar um novo cliente, comprar coisas que eu tanto queria, viajar para um lugar exótico. Pensar que a felicidade é uma cenoura colocada à sua frente e que você só se sente bem se alcançá-la é o maior erro que pode haver. E quando nada disso acontecia, a frustração era insuportável.
Alguém já se sentiu assim?
Junto com a frustração, a culpa. Com que direito posso me sentir infeliz? Não tenho tudo que desejei? Não seja mal-agradecida, vai lá e finge que está tudo bem – era isso que dizia para mim mesma. Mantém a pose e segue porque a vida é assim mesmo. Até que numa bela noite, toda aquela pose e tudo que eu chamava de vida literalmente desmoronou.

Em 19 de julho de 2016, toda a área externa do condomínio onde minha família e eu morávamos desabou. Foram três mil metros, três andares, trezentos carros, tudo transformado em escombros. Por um breve instante, achei que iria morrer e que naquela madrugada perderia toda minha família. Sou grata por nada disso ter acontecido. No dia seguinte estávamos todos vivos. Mas me vi sem casa, sem carro, sem roupa, sem maquiagem. E acredito que perder as coisas que eu achava que significavam a minha felicidade me fez encontrar a depressão.
Questionei tudo que era possível: os deuses, o cosmos, a astrologia e, finalmente, a construtora do condomínio. Por que isso tinha que acontecer comigo? As respostas iriam chegar, mas não sem antes eu me mover em direção a elas. Concordei em abandonar o papel de vítima e repensar a vida me fazendo uma pergunta: o que é felicidade?
A contribuição da ciência para encontrar essa resposta é um dos estudos mais fantásticos do nosso século. A Psicologia se debruçou durante muitos anos sobre as doenças mentais. Mas já era hora de começarmos a dirigir nosso olhar para um outro lado. Pouco a pouco os estudos sobre Felicidade estão jogando ao chão diversos mitos, que durante muito tempo foram reforçados pela cultura do consumo, pela educação, pelo sistema que nos ensina competição e individualismo, pela publicidade que diz abra a felicidade com uma garrafa de refrigerante.

Por ser publicitária, percebo o quanto minha responsabilidade se torna gigante quando o assunto é felicidade. Junto com o capitalismo, a publicidade foi fundamental para construir as riquezas e o mundo que conhecemos hoje. De forma alguma quero desmerecer a publicidade e o capitalismo, mas essa forma já deu, estamos num novo patamar, temos novos desafios, precisamos de um novo capitalismo, que vá além do lucro e uma nova publicidade, que vá além de vender produtos e serviços. Precisamos que ambos ajudem a construir um mundo melhor.
Hoje assumo cada vez mais esse papel de deixar claro que encontrar a felicidade é buscar dentro da gente mesmo esse caminho que só é possível ser construído de forma diária, com novas atitudes e hábitos que fortalecem nossa sensação de bem-estar. De forma nenhuma quero dizer que você deve deixar de comprar coisas. O que não pode é achar que trocar de celular, comprar um carro novo ou renovar o guarda-roupa irão garantir sua felicidade. Lembra que falei no início desse texto sobre os 40% que compõem a felicidade? Eles dependem unicamente da sua forma de repensar a vida, ter uma nova consciência sobre o que é ser feliz e sobre agir para que ela se torne parte de você.

Flavia da Veiga
Fundadora do BeHappier